Desmatamento amazônico: o silêncio dos intelectuais

Os campi da Universidade Federal do Pará e da Universidade Rural da Amazônia são impermeáveis ao mundo imediatamente ao redor deles, que se prolongam às margens do rio Guamá, pouco penetrando para a área adentro, tendo diante de si alguns dos bairros mais pobres e violentos de Belém? E, mais além, uma Amazônia carente dos seus serviços.

Primeiro a Ufra. Neste blog foi revelada — com surpresa e indignação — a presença do escritório comercial da fabricante de motosserras Stihl. Ao blogueiro pareceu um absurdo que uma universidade (ainda por cima, pública), que tem curso de engenharia florestal, abrigue nas suas dependências uma empresa privada que produz o equipamento de derrubar árvores e pôr abaixo florestas.

Reconheceu-se que a motosserra é, em tese, neutra. Um ex-amigo até pretendia esconder que estava comprando uma motosserra, embora apenas para cuidar do seu jardim, temeroso da minha revolta bíblica e insistência chata no tratamento do assunto (e de outros — todos, aliás), se soubesse do fato

Reconheci que a motosserra é um equipamento como o revólver ou o míssil. Que a multinacional alemã Stihl possa continuar a vender o seu produto livremente. Mas vá cantar em outra freguesia, não na sede de uma universidade pública que devia estar empenhada em impedir a continuação da destruição da Amazônia.

Graças à motosserra Stihl, em meio século o desmatamento na Amazônia foi o maior da história da humanidade. Essa máquina destrói mais do que dezenas de machados, o que permitiu a rapidez na eliminação de milhões e milhões de árvores em tão pouco tempo.

Leitores reagiram ao artigo, mas só um ex-aluno da Ufra, o poeta e engenheiro florestal Paulo Vieira. O tema não interessa aos estudantes nem aos professores? A direção da Ufra não se sentiu obrigada a prestar esclarecimentos à opinião pública? Nenhuma autoridade viu a incompatibilidade e, talvez, o desvio de função na presença, já por cinco longos anos, da Stihl no campus? O silêncio de todos é estrondoso, clama aos céus por uma reação.

Como clama pela resposta da comunidade acadêmica às eleições de domingo. O sociólogo alemão Max Weber, pressentindo o risco que havia sobre a precária democracia de Weimar, antes do dilúvio nazista, aconselhou os mais bem preparados a meter a mão na lama para construir alguma coisa que tivesse utilidade prática no mundo político. Se ele era lamacento (ou coisa pior), era impossível não modificá-lo sem sujar as mãos.

Os intelectuais da nossa maior universidade, porém, preferem tratá-las em salão de estética formal.

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Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e autor, entre outros, de O jornalismo na linha de tiro (2006), Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007), Memória do cotidiano (2008) e A agressão (imprensa e violência na Amazônia) (2008).

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Eu sou amazônida, e você?
CVRD – decifra-me ou te devoro
CVRD – a multinacional brasileira
Na Amazônia, o desenvolvimento deixa um buraco
Carajás – a conta do bilhão
Carajás – a voz de um caboclo
A Vale enriquece. E nós?
Vale: a pérola do minério atirada aos porcos

Vale e governo petista: uma guerra viciada
Carajás: Pará vai se industrializar?
Muito minério no Pará: a quem é que beneficia?
Graças à Vale, Carajás é chinês
Amazônia: a condição colonial
Podemos deixar de ser colônia?
Dragão chinês cada vez maior
Barragens rompem em Minas. E as que já existem no Pará?
O fim da Amazônia

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