Acioli Cancellier: A PF é resposável pela morte do meu irmão Luiz Carlos Cancellier de Olivo (UFSC)

Trechos do artigo “Compreensão histórica do regime empresarial-militar brasileiro entre 1964 e 1985”, de autoria de Fábio Konder Comparato, professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, doutor honoris causa da Universidade de Coimbra e doutor em Direito da Universidade de Paris:

O pesquisador Acioli Cancelier de Olivo, irmão do ex-reitor da universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Luiz Carlos Cancellier de Olivo, concedeu entrevista à TV 247 nesta semana, relatando os últimos momentos que passou ao lado do irmão e todo o achincalhamento público que o levou ao suicídio. “A Polícia Federal é responsável pela morte do meu irmão”, condena Acioli, ao relembrar a falsa acusação de que Luiz Carlos teria desviado 80 milhões da UFSC.

Acioli recorda que, acima de tudo, seu irmão era um ativista da democracia. “Ele ingressou na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) nos anos 80, como estudante de direito, e fez política estudantil na universidade por dois anos. Ao participar de um ato contra a visita do General João Figueiredo na UFSC, Luiz Carlos sofreu uma severa perseguição, tendo que abandonar a graduação”, relata.

Ele conta que o irmão não voltou imediatamente à UFCS, tornando-se jornalista profissional e prestando assessoria parlamentar. “Somente aos 38 anos ele retorna as cadeiras da UFSC para estudar direito, fazendo na sequência mestrado e doutorado. Em 2016 foi eleito reitor da universidade, de fato é uma carreira meteórica”, aponta Acioli.

Acioli descreve como era o dia a dia do seu irmão na universidade. “Luiz Carlos sempre atuou em defesa da universidade, buscando recursos através das Emendas Parlamentares, participando ativamente do cotidiano da UFSC. A vida dele era o mundo acadêmico, tanto que o apartamento dele era ao lado do campus”, recorda.

Prisão e tortura

Luiz Carlos Cancellier foi preso na Operação Ouvidos Moucos, deflagrada em 14 de setembro de 2014 pela Polícia Federal, sob a acusação de desvios de recursos para cursos de Educação a Distância (EaD) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e por obstruir investigação. A operação foi coordenada por Erika Mialik Marena, conhecida por liderar investigações com grande apelo midiático.

Acioli relembra as atrocidades cometidas contra o seu irmão, que estava recém-operado de uma cirurgia cardíaca. “No dia 14 de setembro, recebo uma ligação dizendo que Luiz Carlos havia sido preso. Ele permaneceu dois dias detido e conseguimos tirá-lo da polícia federal”, conta.

A seguir, Acioli relata cenas que remetem aos tempos de chumbo. “Levaram Luiz Carlos para uma cadeia de segurança máxima, onde ficou por duas horas nu, na frente de várias pessoas. Depois foi algemado e acorrentado nos pés, vestiu um macacão laranja, ouvindo todas as chacotas possíveis por parte dos funcionários e prisioneiros. Ele saiu de lá apavorado, não sabia se seu coração resistiria”, expõe.

“Sempre alegre a divertido, meu irmão saiu da cadeia triste, muito deprimido e preocupado”, comenta Acioli, que dispara: “Além de ser detido e ter ficado incomunicável, Luiz Carlos foi destituído de seu cargo de reitor e proibido de entrar na universidade. É correto prender alguém sem antes de prestar depoimento ou encerrar o processo?”, questiona.

“Proibiram meu irmão de conversar com pessoas da universidade. Todo esse processo matou meu irmão, a vida dele era a UFSC”, afirma Acioli.

Acuse primeiro, investigue depois 

Acioli condena os tramites do processo envolvendo a incriminação de seu irmão, argumentando que Luiz Carlos não sabia que estava sendo investigado ou muito menos que obstruiu alguma investigação. “O que o matou perante a sociedade foi à acusação de que ele teria desviado 80 milhões da UFSC, isso nem consta no inquérito”, elucida.

Ele condena o papel de mídia que crucificou o seu irmão. “Tinha uma jornalista histérica que dizia que meu irmão estava roubando dinheiro da universidade, logo ele, que lutou tanto para trazer recursos para a federal de Santa Catarina”, ressalta Acioli.

Depois de toda a exposição e achincalhamento público enfrentada por Luiz Carlos, a Polícia Federal divulgou que os 80 milhões desviados eram dos recursos pagos no Ensino a Distância, não tendo ocorrido desvio algum por parte do reitor.

“Eu tenho orgulho do meu irmão” 

Acioli afirma que tem muito orgulho do seu irmão, salientando que seu suicídio foi um ato político. “Luiz Carlos deixa um recado no bilhete de despedida dizendo que a morte dele ocorreu quando foi banido da universidade e que não se pode julgar alguém irresponsavelmente”, recorda.

No dia 2 de outubro de 2018, Luiz Carlos Cancellier de Olivo cometeu suicídio em um shopping de Florianópolis. Passado um mês da fatalidade, em solenidade que o homenageou no Congresso Nacional, a família de Luiz Carlos entregou ao ministro da Justiça,Torquato Jardim, um pedido de investigação sobre o inquérito que incriminou o reitor da UFSC.

“Três meses depois fiquei sabendo que a própria Polícia Federal conduziu as investigações do inquérito, já o ministério da Justiça nem ao menos me respondeu ou deu qualquer parecer”, recapitula.

Acioli conclui a entrevista dizendo que ele e sua família querem justiça. “Que se apurem os fatos. Se meu irmão possui culpa efetiva, então eu peço desculpas à sociedade. Mas, se for provado o contrário, e até agora não existe nenhuma prova de acusação, que a justiça e o ministério público digam: Erramos”.

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