Acioli Cancellier: A PF é resposável pela morte do meu irmão Luiz Carlos Cancellier de Olivo (UFSC)

Trechos do artigo “Compreensão histórica do regime empresarial-militar brasileiro entre 1964 e 1985”, de autoria de Fábio Konder Comparato, professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, doutor honoris causa da Universidade de Coimbra e doutor em Direito da Universidade de Paris:

O pesquisador Acioli Cancelier de Olivo, irmão do ex-reitor da universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Luiz Carlos Cancellier de Olivo, concedeu entrevista à TV 247 nesta semana, relatando os últimos momentos que passou ao lado do irmão e todo o achincalhamento público que o levou ao suicídio. “A Polícia Federal é responsável pela morte do meu irmão”, condena Acioli, ao relembrar a falsa acusação de que Luiz Carlos teria desviado 80 milhões da UFSC.

Acioli recorda que, acima de tudo, seu irmão era um ativista da democracia. “Ele ingressou na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) nos anos 80, como estudante de direito, e fez política estudantil na universidade por dois anos. Ao participar de um ato contra a visita do General João Figueiredo na UFSC, Luiz Carlos sofreu uma severa perseguição, tendo que abandonar a graduação”, relata.

Ele conta que o irmão não voltou imediatamente à UFCS, tornando-se jornalista profissional e prestando assessoria parlamentar. “Somente aos 38 anos ele retorna as cadeiras da UFSC para estudar direito, fazendo na sequência mestrado e doutorado. Em 2016 foi eleito reitor da universidade, de fato é uma carreira meteórica”, aponta Acioli.

Acioli descreve como era o dia a dia do seu irmão na universidade. “Luiz Carlos sempre atuou em defesa da universidade, buscando recursos através das Emendas Parlamentares, participando ativamente do cotidiano da UFSC. A vida dele era o mundo acadêmico, tanto que o apartamento dele era ao lado do campus”, recorda.

Prisão e tortura

Luiz Carlos Cancellier foi preso na Operação Ouvidos Moucos, deflagrada em 14 de setembro de 2014 pela Polícia Federal, sob a acusação de desvios de recursos para cursos de Educação a Distância (EaD) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e por obstruir investigação. A operação foi coordenada por Erika Mialik Marena, conhecida por liderar investigações com grande apelo midiático.

Acioli relembra as atrocidades cometidas contra o seu irmão, que estava recém-operado de uma cirurgia cardíaca. “No dia 14 de setembro, recebo uma ligação dizendo que Luiz Carlos havia sido preso. Ele permaneceu dois dias detido e conseguimos tirá-lo da polícia federal”, conta.

A seguir, Acioli relata cenas que remetem aos tempos de chumbo. “Levaram Luiz Carlos para uma cadeia de segurança máxima, onde ficou por duas horas nu, na frente de várias pessoas. Depois foi algemado e acorrentado nos pés, vestiu um macacão laranja, ouvindo todas as chacotas possíveis por parte dos funcionários e prisioneiros. Ele saiu de lá apavorado, não sabia se seu coração resistiria”, expõe.

“Sempre alegre a divertido, meu irmão saiu da cadeia triste, muito deprimido e preocupado”, comenta Acioli, que dispara: “Além de ser detido e ter ficado incomunicável, Luiz Carlos foi destituído de seu cargo de reitor e proibido de entrar na universidade. É correto prender alguém sem antes de prestar depoimento ou encerrar o processo?”, questiona.

“Proibiram meu irmão de conversar com pessoas da universidade. Todo esse processo matou meu irmão, a vida dele era a UFSC”, afirma Acioli.

Acuse primeiro, investigue depois 

Acioli condena os tramites do processo envolvendo a incriminação de seu irmão, argumentando que Luiz Carlos não sabia que estava sendo investigado ou muito menos que obstruiu alguma investigação. “O que o matou perante a sociedade foi à acusação de que ele teria desviado 80 milhões da UFSC, isso nem consta no inquérito”, elucida.

Ele condena o papel de mídia que crucificou o seu irmão. “Tinha uma jornalista histérica que dizia que meu irmão estava roubando dinheiro da universidade, logo ele, que lutou tanto para trazer recursos para a federal de Santa Catarina”, ressalta Acioli.

Depois de toda a exposição e achincalhamento público enfrentada por Luiz Carlos, a Polícia Federal divulgou que os 80 milhões desviados eram dos recursos pagos no Ensino a Distância, não tendo ocorrido desvio algum por parte do reitor.

“Eu tenho orgulho do meu irmão” 

Acioli afirma que tem muito orgulho do seu irmão, salientando que seu suicídio foi um ato político. “Luiz Carlos deixa um recado no bilhete de despedida dizendo que a morte dele ocorreu quando foi banido da universidade e que não se pode julgar alguém irresponsavelmente”, recorda.

No dia 2 de outubro de 2018, Luiz Carlos Cancellier de Olivo cometeu suicídio em um shopping de Florianópolis. Passado um mês da fatalidade, em solenidade que o homenageou no Congresso Nacional, a família de Luiz Carlos entregou ao ministro da Justiça,Torquato Jardim, um pedido de investigação sobre o inquérito que incriminou o reitor da UFSC.

“Três meses depois fiquei sabendo que a própria Polícia Federal conduziu as investigações do inquérito, já o ministério da Justiça nem ao menos me respondeu ou deu qualquer parecer”, recapitula.

Acioli conclui a entrevista dizendo que ele e sua família querem justiça. “Que se apurem os fatos. Se meu irmão possui culpa efetiva, então eu peço desculpas à sociedade. Mas, se for provado o contrário, e até agora não existe nenhuma prova de acusação, que a justiça e o ministério público digam: Erramos”.

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A Intervenção no Governo Brasileiro

Nos últimos anos, o Brasil vem passando por transformações drásticas e súbitas. A deposição da presidenta Dilma Rousseff, a profunda crise do sistema de representação propiciada, entre outros fatores, pela operação Lava Jato, a célere implantação de uma agenda economicamente conservadora e socialmente regressiva e, mais recentemente, a aberta militarização da segurança pública, que trouxe de volta as forças armadas ao cenário nacional, configuram quadro político radicalmente distinto daquele que havia predominado até 2014.

Do nosso ponto de vista, essa nova realidade política representa clara ruptura com o status quo político-institucional que havia se criado com a Constituição de 1988.

No Brasil pós-ditadura, as disputas em geral envolveram forças de esquerda e centro-esquerda contra forças de centro-direita e direita que competiam pelo voto do centro político e dos indecisos. Havia uma característica marcante nessas disputas: todas as forças davam apoio explícito à consolidação da democracia no Brasil.

Configurou-se, assim, uma espécie de pacto implícito pelo qual todas as forças políticas relevantes reconheciam a democracia como valor universal e imprescindível para fazer avançar o desenvolvimento do país. Mesmo com as limitações estruturais óbvias da democracia brasileira, que alijava a maior parte da população de direitos sociais e políticos básicos, havia essa disposição praticamente consensual para aprofundá-la e consolidá-la, sentimento natural num país que havia acabado de sair de décadas de ditadura.

A chegada do PT ao poder, nas eleições de 2002, representou teste significativo para as instituições democráticas consolidadas após a Constituição de 1988. Apesar das experiências trágicas do segundo governo de Getúlio Vargas e do governo João Goulart, muitos acreditaram que a democracia brasileira havia amadurecido o suficiente para lidar com um governo, que, na prática, era bastante moderado e conciliador, dedicado à promoção da inclusão social e à erradicação da pobreza e das desigualdades, sem afetar, porém, os interesses das classes dominantes.

Por um breve momento histórico parecíamos emular, mutatis mutandis, as experiências exitosas da socialdemocracia europeia clássica. Houve maciça ascensão social, erradicação da pobreza extrema, aumento da participação dos salários no PIB, diminuição da informalidade laboral e ampliação do acesso à educação. Ao mesmo tempo, eliminou-se a vulnerabilidade externa da economia e iniciou-se um ciclo de crescimento baseado na dinamização do mercado interno. Assim, a nossa democracia aparentava ter amadurecido e ser capaz de lidar e de negociar com os conflitos distributivos inerentes às economias capitalistas.

Contudo, esse quadro mudou drasticamente quando a crise começou a afetar os interesses de nossas oligarquias e dos seus setores políticos aliados. Num átimo, a ilusão com o amadurecimento da democracia brasileira desfez-se com o impeachment sem crime de responsabilidade. Rompeu-se com a alternância democrática entre as forças políticas e com o pacto político-institucional plasmado na Constituição de 1988.

Tal ruptura permitiu que fosse implantada ampla agenda econômica e social conservadora, a qual dificilmente teria sido aprovada pelas urnas, tal como ficou demonstrado no pleito de 2014, que elegeu a agenda oposta de continuidade do processo de distribuição de renda e de combate à pobreza e à exclusão. Ressaltam-se, nessa agenda conservadora implantada à margem da soberania popular, largas medidas de privatização e desnacionalização de “tudo o que for possível” e mudanças significativas, tanto no âmbito da política externa quanto na área da política de defesa.

Paralelamente, a chamada operação Lava Jato, que teve papel central na geração do clima político propício ao golpe parlamentar de 2016, contribuiu para erodir a legitimidade do sistema de representação e instituir crescente Estado de exceção, necessário à imposição de uma agenda bastante impopular.

Tal quadro de ruptura institucional e democrática, agressões aos direitos humanos e à soberania popular e crise do sistema de representação foi agravado, recentemente, pela intervenção militar no Rio de Janeiro, que traz de volta à cena nacional as forças armadas, numa tentativa de buscar legitimidade para um governo com alta rejeição e de resolver o complexo problema da segurança pública pela via autoritária.

Essas profundas, céleres e drásticas mudanças foram ocasionadas, fundamentalmente, por fatores econômicos, sociais e políticos internos. Apesar disso, não podemos descartar, a priori, que existam não também interesses internacionais empenhados na desestabilização da democracia do Brasil e na afirmação da agenda econômica conservadora propiciada pelo golpe de 2016. Tampouco se deve descartar liminarmente a hipótese de que haja interesses geopolíticos de outras nações que influenciem operações como a da Lava Jato e a decisão de usar as forças armadas brasileiras no combate à criminalidade.

Sempre que se tenta fazer essa discussão, muitos tentam desqualificá-la, a priori, como mera “teoria da conspiração”. Isso não é adequado. Afinal, a história da América Latina e do Brasil mostra que as ingerências externas em assuntos internos foram, e ainda são, abundantes em nossa região.

Em estudo publicado na Harvard Review of Latin America[1], em 2005, menciona-se que, apenas entre 1898 e 1994, os EUA conseguiram êxito em mudar governos da região 41 vezes, o que dá uma média de uma mudança de governo a cada 28 meses. Ressalte-se que, nesse estudo publicado na Universidade de Harvard, não se analisa as possíveis intervenções recentes, como as ocorridas em Honduras (2009), Paraguai (2012) e Brasil (2016).

Há, pois, um longo histórico de intervenções, no qual se inclui o golpe militar brasileiro de 1964, que recomenda análises mais abrangentes e aprofundadas sobre o golpe parlamentar de 2016 e, mais especificamente, sobre a Lava Jato e seu modus operandi, bem como sobre a intervenção militar no Rio de Janeiro. Evidentemente, não é intenção deste artigo fazer análise abrangente dessas possíveis implicações. Queremos aqui apenas listar algumas evidências que apontam para a existência de influências externas na conformação desses fenômenos.

Ingerência Externa na Lava Jato e na consequente Perseguição Judicial (lawfare) contra o ex-presidente Lula

Em geral, as intervenções dos EUA nos assuntos internos dos países da região se dão de forma indireta. Assim, das 41 intervenções exitosas mencionadas no estudo publicado em Harvard, somente 17 foram diretas, mediante uso aberto da força.

No caso das intervenções indiretas, o mecanismo mais usual da ingerência é o da “cooperação”, em diversas áreas. Com efeito, os mecanismos de cooperação, aparentemente inocentes, se prestam, muitas vezes, a atividades de cooptação ideológica e política e de influência indevida em assuntos internos de outros países.

Em relação à guerra judicial (lawfare) contra o ex-presidente Lula e ao próprio golpe de 2016, crescem as evidências de que houve e há ingerências norte-americanas nos acontecimentos, especialmente mediante a denominada operação Lava Jato, propiciada por uma cooperação bilateral judicial entre Brasil e EUA. De fato, já há a forte suspeita, consubstanciada em fatos, de que a Operação Lava Jato foi politicamente instrumentalizada, de forma a produzir efeitos objetivamente nocivos no Brasil.

No campo econômico, tal operação contribuiu para destruir a cadeia de petróleo e gás, ensejou a venda, a preços aviltados, das reservas do pré-sal, solapou a nossa competitiva construção civil pesada e comprometeu projetos estratégicos na área da defesa, com o relativo à construção de submarinos. Conforme estudo da consultoria GO Associados, a Lava Jato teria ocasionado uma diminuição do PIB da ordem de 2,5%, em 2015, contribuindo para desempregar centenas de milhares de brasileiras e brasileiros.

No campo político, a operação Lava Jato teve papel significativo no golpe parlamentar de 2016, que depôs a presidenta Dilma Rousseff, sem a devida comprovação do cometimento de qualquer crime de responsabilidade, como exige a Constituição. Ademais, tal operação vem tendo destaque na denominada guerra judicial contra o ex-presidente Lula, a qual visa o objetivo político de impedir a sua candidatura para as eleições de 2018.

Pois bem, essa operação foi gerada no âmbito de uma estreita cooperação judicial bilateral entre EUA e Brasil. O aprofundamento dessa cooperação judiciária e de segurança entre Brasil e EUA começou a se dar na década de 1990, mais especificamente ao longo do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

Datam dessa época a abertura de escritórios da DEA e do FBI no Brasil, órgãos que passaram a cooperar ativamente com a Polícia Federal brasileira e outros órgãos, com investimentos vultosos em capacitação e treinamento de nossos policiais. Tais investimentos criaram uma inevitável relação de dependência e possibilitaram a progressiva incorporação da agenda da “guerra às drogas” e outros temas de interesse maior dos EUA aos objetivos da segurança púbica do Brasil. Também data dessa época o aprofundamento da cooperação entre as procuradorias de ambos os países, não apenas visando o combate ao narcotráfico, mas outros delitos internacionais, como corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

Com o objetivo de fundamentar juridicamente essa cooperação, foi firmado, em 1997, o “Acordo de Assistência Judiciária em Matéria Penal entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo dos Estados Unidos da América”.

Esse acordo ditou regras estritas para a cooperação. Entre elas, destaca-se a do Artigo II do acordo, a qual prevê que cada Parte designará uma Autoridade Central para enviar e receber solicitações em observância ao presente Acordo e que, para a República Federativa do Brasil, a Autoridade Central será o Ministério da Justiça. Também se deve salientar a do Artigo III, o qual o prevê que a assistência poderá ser negada, caso o atendimento à solicitação prejudicar a segurança ou interesses essenciais semelhantes do Estado Requerido.

No entanto, essas regras previstas no acordo vêm sendo sistematicamente violadas, nas atividades de cooperação. Isso foi dito publicamente por altas autoridades norte-americanas envolvidas nessas atividades. Tais “confissões” mostram não apenas que as regras do acordo vêm sendo desrespeitadas, mas também que as autoridades norte-americanas conduziram a construção da Lava Jato e o processo relativo ao apartamento triplex.

Com efeito, em manifestações públicas proferidas em 19 de julho de 2017, o Sr. Kenneth Blanco, então Vice-Procurador Geral Adjunto do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ), e o Sr. Trevor Mc Fadden, então Subsecretário Geral de Justiça Adjunto Interino daquele país, explanaram sobre cooperação baseada em “confiança”[2] e, por vezes, fora dos “procedimentos oficiais”, realizada entre as autoridades norte-americanas e os Procuradores da República da Lava Jato.

Afirmou o procurador Blanco que “tal confiança, como alguns aqui dizem “confiança”, permite que promotores e agentes tenham comunicação direta quanto às provas. Dado o relacionamento íntimo entre o Departamento de Justiça e os promotores brasileiros, não dependemos apenas de procedimentos oficiais como tratados de assistência jurídica mútua, que geralmente levam tempo e recursos consideráveis para serem escritos, traduzidos, transmitidos oficialmente e respondidos”. (grifos nossos)

Ora, tal cooperação informal, feita com base em “relacionamento íntimo”, se dá a revelia do texto do acordo, pois ele prevê, como vimos, que tudo teria de ser aprovado e conduzido pelo Ministério da Justiça.  Mas não há qualquer registro oficial mostrando que o MJ tenha sequer tomado conhecimento dessas atividades informais. Assim, alguns juízes e procuradores, principalmente os da Lava Jato, não prestam contas a ninguém. Ignoram a norma do acordo com os EUA. Atuam conforme suas idiossincrasias pessoais e ideológicas, numa espécie de cooperação pessoal, que não tem sustentáculo jurídico.

Aqui é necessário fazer uma observação importante. A ordem jurídica interna do Brasil funciona com base em princípios diferentes da ordem jurídica interna norte-americana. Em nosso direito positivo, o agente público não é apenas proibido de fazer o que a lei veda. Ele é proibido de fazer tudo aquilo que a lei não preveja de forma explícita. Ele só pode atuar no marco estreito da letra da lei. Ora, essa cooperação informal, fora das vias oficiais, viola o texto do acordo firmado com os EUA, o qual, na ordem jurídica interna do Brasil, tem força de lei. Trata-se, portanto, de uma cooperação ilegal.

Ademais de violar abertamente o texto do acordo de cooperação, tais atividades informais agridem também princípios constitucionais. A Constituição Federal brasileira estipula que é prerrogativa constitucional exclusiva do Presidente da República celebrar tratados internacionais e conduzir as relações externas do país.  Trata-se de princípio comezinho das relações internacionais, que exige que a voz do país no exterior seja uma só. Não se admite que um país tenha vários órgãos independentes que determinem políticas externas distintas. Por tal razão, qualquer atividade de cooperação teria de ser ao menos comunicada ao Itamaraty e por ele supervisionada. Obviamente, isso não acontece. Desse modo, nossos procuradores e juízes estabeleceram, em desafio claro à Constituição, política externa específica e independente para com os EUA.

As autoridades nacionais e o Congresso Nacional do Brasil sequer tomaram conhecimento, por vias oficiais, dos processos abertos nos EUA contra empresas brasileiras, o que causa muita estranheza. Alguns argumentam que os processos nos EUA contra empresas brasileiras (EMBRAER, Petrobras, etc.) decorrem do fato de que essas firmas abriram seu capital nas bolsas daquele país, submetendo-se, automaticamente, à legislação de mercado de capitais operada pela Securities and Exchange Commission.

Mas isso é apenas uma meia verdade. As multas geradas pelos norte-americanos às empresas brasileiras somam até agora a cerca de R$ 7 bilhões. As maiores da história. Trata-se de multas por delitos cometidos no Brasil por pessoas e empresas brasileiras. Como agravante, o Tesouro é o principal acionista da empresa mais demandada, a Petrobras.

Portanto, estamos lidando com recursos que estão ou poderiam estar na administração pública brasileira, mas que estão sendo transferidos para o exterior.  A título de quê? Quais os critérios para fazer essa distribuição de valores (asset sharing), que nunca foi prática no Brasil? Como se chegou a esses valores? O Ministério da Justiça, “autoridade central” do Brasil, aprovou? O Ministério do Planejamento brasileiro previu esse gasto esdrúxulo no orçamento? O Itamaraty concordou? Todas essas perguntas pertinentes continuam sem resposta.

Mais ainda. Cabe privativamente ao Senado Federal, pela Constituição do Brasil (artigo 52, inciso V), autorizar operações externas de natureza financeira, de interesse da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios. Ora, é óbvio que essas operações financeiras são de interesse da União, pois tangem a recursos do Tesouro ou potencialmente do Tesouro. Entretanto, o Senado brasileiro só tomou conhecimento do tema pela imprensa.

Note-se que, em janeiro deste ano (2018), a Petrobras apresentou proposta para que os investidores norte-americanos desistam da ação legal contra a empresa, a qual prevê pagamento de US$ 2,95 bilhões (quase R$ 10 bilhões). Tal oferta é 6,5 vezes superior ao total de recursos recuperados até agora pela Lava Jato (R$ 1, 4 bilhão).

Embora a Constituição brasileira assegure ao Ministério Público autonomia, essa autonomia não lhe dá a prerrogativa de usurpar competências constitucionais privativas do Senado Federal e do Presidente da República. Também não lhe dá o direito de desrespeitar regras de acordos internacionais e a legislação interna do Brasil.

Mas não se trata apenas aqui de cooperação informal, sem nenhum amparo legal. Trata-se também de uma cooperação que foi construída essencialmente por interesses norte-americanos. De fato, numa relação informal, feita sem a supervisão de autoridades centrais, acabam predominando inevitavelmente os interesses da Parte mais preparada, experiente, e que dispõe de maiores recursos.

Na mesma palestra aqui referida, o procurador Blanco afirma que a Divisão Criminal é composta por cerca de 700 advogados espalhados por 17 setores e escritórios, principalmente em Washington D.C., e muitos em escritórios no exterior, inclusive no Brasil. Assim, o procurador confessa que há escritórios de procuradores norte-americanos, que atuam livremente em nosso país.

A influência dos EUA nas procuradorias brasileiras é objeto de várias mensagens diplomáticas norte-americanas, vazadas pelo Wikileaks, as quais mencionam o “Projeto Pontes”[3]. Trata-se de uma Conferência Regional de cooperação, realizada em outubro de 2009, com a presença de membros seletos da PF, Judiciário, Ministério Público, e autoridades norte-americanas, no Rio de Janeiro.

O informe diz que os agentes norte-americanos influenciariam brasileiros a criar uma força-tarefa para trabalhar em um caso factual, que receberia assessoria externa em “tempo real”.

Segundo um dos comunicados, após o sucesso da Conferência sobre “crimes financeiros ilícitos” promovido pelo “Projeto Pontes” (financiado com recursos dos EUA), cursos de formação em São Paulo e Curitiba foram solicitados por juízes, promotores e policiais brasileiros interessados em aprofundar o conhecimento sobre como, por exemplo, arrancar, de maneira prática, confissões de acusados de lavagem de dinheiro e outros crimes.

O sucesso do seminário, segundo a visão dos norte-americanos, foi medido pelo pleito dos profissionais brasileiros por novos treinamentos.

“Os participantes elogiaram a ajuda em treinamento e solicitaram mais treinamento para coleta de provas, interrogatório e entrevista, habilidades em situação de tribunal e o modelo de força-tarefa. (…) vários comentaram que desejavam aprender mais sobre o modelo proativo de força-tarefa; desenvolver melhor cooperação entre procuradores e polícia e ganhar experiência direta no trabalho sobre casos financeiros complexos de longo prazo.”

Para os agentes do EUA envolvidos no projeto, “(…) há necessidade continuada de assegurar treinamento a juízes federais e estaduais no Brasil, e autoridades policiais para enfrentar o financiamento ilícito de conduta criminosa. (…) Idealmente, o treinamento deve ser de longo prazo e coincidir com a formação de forças-tarefa de treinamento. Dois grandes centros urbanos com suporte judicial comprovado para casos de financiamento ilícito, especialmente São Paulo, Campo Grande ou Curitiba, devem ser selecionados como locação para esse tipo de treinamento.” (grifamos)

As anotações vazadas pelo Wikileaks indicam, ainda, que os agentes americanos pretendiam não só ensinar como se daria a formação de uma força-tarefa para um caso específico, mas incentivar que esse caso fosse transformado em “investigação real”, com “acesso” aos treinadores norte-americanos.

Assim sendo, torna-se claro que a força–tarefa da Lava Jato foi formada com participação e influência proativa de autoridades norte-americanas. Observe-se que tal influência reflete-se, inclusive, nos métodos utilizados.

É que a Lava Jato tem na Seção de Fraudes do Departamento de Justiça dos EUA a sua contraparte. Andrew Weissmann, chefe dessa seção, entre 2014 e 2017, é um procurador conhecido, nos EUA, por utilizar métodos pouco ortodoxos. Ele ganhou fama por comandar a força-tarefa que investigou a empresa de energia ENRON, no início deste século.

Pois bem, acusações e prisões de familiares, prisão como método de tortura, táticas agressivas e de risco, uso de vazamentos seletivos são, conforme denúncias surgidas nos EUA, procedimentos utilizados regularmente por Weissmann na força-tarefa da ENRON, que se reproduziram claramente na Lava-Jato.

Com efeito, os métodos de trabalho usados por Weissmann e replicados na Lava-Jato, foram considerados, nos EUA, como “agressivos”, de “alto risco” e exagerados. As cortes superiores norte-americanas acabaram revertendo vários casos da força–tarefa da ENRON, em razão das táticas utilizadas, que violavam direitos humanos. O mais rumoroso deles foi o da firma Arthur Andersen LLP, que teve todas as acusações retiradas pela Suprema Corte, em 2005. Ainda há juízes em Washington. Antes da Lava Jato, os procuradores brasileiros não se utilizavam desses métodos que violam direitos constitucionais.

A influência norte-americana é também política. O procurador Blanco fez referência específica, em seu pronunciamento, à sentença condenatória proferida contra Lula e ressaltou também neste caso a parceria norte-americana com os membros do MPF.

No vídeo, o procurador afirma que: “na verdade, na semana passada, os promotores no Brasil conseguiram a condenação do ex-presidente Lula da Silva, que foi acusado de receber subornos da empresa de engenharia OAS em troca de sua ajuda na obtenção de contratos com a petrolífera estatal Petrobras. São casos como esse que colocaram o Brasil na vanguarda dos países que estão trabalhando para combater a corrupção, tanto no país como fora.”[4]

Dessa maneira, um procurador norte-americano se refere explicitamente ao ex-presidente Lula como uma espécie de grande troféu da cooperação bilateral. Para ele, a condenação de Lula coloca o Brasil na “vanguarda da luta contra a corrupção”. Nota-se, assim, por parte da procuradoria norte-americana, intenção de interferir na vida política do Brasil, o que representa nítido desvirtuamento da cooperação bilateral.

É preciso levar em consideração, nesta análise, que os EUA costumam se utilizar dessas atividades de cooperação para fazer prevalecer seus interesses econômicos e políticos. O enfraquecimento de empresas brasileiras, como a Petrobras, a Odebrecht, a Embraer, etc. favorece objetivamente interesses norte-americanos e de seus aliados, quer pela eliminação de concorrentes, quer pela perspectiva de compra facilitada de ativos estratégicos, como petróleo e gás, gasodutos, terras, água, empresas de energia, empresas de alta tecnologia etc.

Concomitantemente, as atividades de cooperação na área do combate aos ilícitos, ou supostos ilícitos, podem servir de oportunidade para a criação de alvos políticos de interesse dos EUA. Dada à óbvia assimetria nas relações bilaterais Brasil/EUA, tais objetivos geopolíticos não seriam difíceis de serem alcançados, sob o manto aparentemente neutro e “mutuamente benéfico” das atividades de cooperação.

No entanto, o contrário, isto é, o uso das atividades de cooperação na propugnação de interesses brasileiros nos EUA, seria algo virtualmente impossível, pois a única superpotência do planeta não aceita, sob nenhuma hipótese, que autoridades estrangeiras possam se intrometer em seus assuntos ou prejudicar seus interesses, públicos ou privados.

Note-se, a esse respeito, que a Foreign Corrupt Practices Act (FCPA), lei norte-americana que busca coibir que companhias (americanas ou estrangeiras) façam pagamentos a funcionários de governos em troca de vantagens a seus negócios, tem nítido caráter extraterritorial.

De fato, para o Departamento de Justiça norte-americano (DOJ), os atos de corrupção investigados podem ter ocorrido em qualquer país, desde que a empresa mantenha vínculos, ainda que mínimos, com os EUA. Assim, enquadram-se nessa lei empresas que tenham ações em bolsas americanas, investimentos ou mesmo contas bancárias nos EUA.

Na visão do governo norte-americano, a lei em comento teria lhe propiciado uma espécie de jurisdição internacional para investigar casos de corrupção em todo o mundo. Como dificilmente uma empresa internacionalizada não tem interesses nos EUA, isso submete todas as empresas de alguma relevância ao crivo jurídico e político da lei norte-americana.

Dessa maneira, o combate aparentemente neutro à corrupção em nível internacional pode ser facilmente desvirtuado para beneficiar apenas interesses geopolíticos específicos.

Interesses Geopolíticos na Intervenção Militar no Rio de Janeiro

As mesmas suspeitas que cercam a cooperação bilateral Brasil/EUA na área judicial e, consequentemente, a Operação Lava Jato e o próprio impeachment sem crime de responsabilidade, se espraiam também à recente decisão do governo ilegítimo de proceder a uma intervenção militar no Rio de Janeiro.

Tal intervenção no Rio de Janeiro é, sem dúvida, bastante polêmica. Com efeito, ela suscita uma série de questionamentos, que vão desde as motivações da iniciativa até as possíveis consequências sociais e políticas das ações propostas.

Os questionamentos se acirraram consideravelmente, após a terrível execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL. A vereadora, combatente em prol dos direitos humanos, que se dedicava a defender as populações faveladas da cidade, vítimas históricas da violência policial, criticava abertamente a intervenção e estava empenhada no monitoramento e controle das operações.

Seu assassinato, em aberto desafio à ordem constitucional e às instituições democráticas, suscita dúvidas profundas sobre a capacidade da intervenção militar de melhorar, ainda que brevemente, a situação da segurança pública naquele estado. As dúvidas se intensificam, no que se refere à compatibilidade de tal intervenção com a imprescindível proteção aos direitos humanos fundamentais das populações mais afetadas pela violência e a exclusão social.

Entretanto, o objetivo deste artigo não é, repetimos, o de analisar, de forma pormenorizada, todos esses aspectos relevantes da intervenção militar no Rio de Janeiro. Na realidade, este modesto trabalho tem escopo reduzido. Tratamos apenas de inquirir sobre os possíveis aspectos geopolíticos que motivam esse uso ostensivo das forças armadas brasileiras na segurança pública e no combate à criminalidade ordinária.

Muito embora a motivação imediata da intervenção militar no Rio de Janeiro tenha sido claramente a de buscar popularidade e legitimidade para um governo com níveis altíssimos de rejeição na opinião pública, voltamos a enfatizar que não se pode descartar, a priori, que existam motivações de ordem mais ampla, inseridas em conhecidas pressões geopolíticas hemisféricas e em mudanças que vêm ocorrendo nas políticas externa e de defesa do Brasil.

As pressões dos EUA para o envolvimento das forças armadas latino-americanas no combate ao narcotráfico e sua transformação em forças subalternas da segurança hemisférica

Desde a década de 1980, com intensificação na década de 1990, os governos dos EUA passaram a pressionar os governos da América Latina, no sentido de que as forças armadas da região passassem a atuar em segurança pública, mais especificamente no combate ao narcotráfico, tema muito sensível nas eleições daquele país.

Essa pressão obedecia a dois propósitos: em primeiro lugar, auxiliar as forças norte-americanas a reduzir o afluxo de entorpecentes aos EUA e, com isso, aumentar os preço das drogas vendidas naquele mercado, diminuindo, dessa forma, o consumo local. Mas havia também outro objetivo, oculto, pelo qual se procurava enfraquecer as capacidades das forças armadas latino-americanas de cumprir sua missão precípua de defender o território e a soberania de seus países Com isso, os EUA procuravam (e ainda procuram) fazer com que as forças armadas da região se convertam em forças subalternas das forças militares norte-americanas.

Foi exatamente por isso que os EUA pressionaram o Brasil, na década de 1990, a desenvolver uma ampla política de desarmamento, que foi prontamente aceita e implementada pelo governo neoliberal de FHC. De fato, naquela época o Brasil firmou todos os acordos de desarmamentos possíveis, inclusive o “Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares” (TNP).

O ex-chanceler Celso Amorim, em entrevista recente à Revista Fórum[5], observa que: “esse pensamento de que Forças Armadas devem combater narcotráfico é lamentável. Eu convivo com essa questão há muitos anos. Eu fui ministro das Relações Exteriores na época do governo Itamar. Na ocasião, veio o secretário de defesa dos EUA, William Perry, e como na época não havia ministro da defesa, eu o recebi, embora ele tivesse contato com vários comandos. Todos estavam muito preocupados com essa ideia de transformar as Forças Armadas brasileiras em instrumento de combate à criminalidade. Essa era a agenda norte-americana. Eles [EUA] diziam algo como ‘olha, segurança externa e defesa cuidamos nós’. Isso foi o que eles impuseram no México, e deu muito errado pro México. (grifos nossos).

De fato, a experiência do México, nesse aspecto, tem sido desastrosa. Desde 2005, quando o ex-presidente Fox envolveu as forças armadas mexicanas no combate ao narcotráfico e ao contrabando, que o Exército e a população vivem violência crescente. Conforme estimativas conservadoras, mais de 100 mil pessoas foram assassinadas nessa guerra incentivada pelos EUA, a maioria civis inocentes.

Com efeito, o desgaste é evidente. O uso da força militar foi acompanhado de aumento de abusos e assassinatos. Organizações internacionais de direitos humanos denunciam a tortura como uma prática comum. O terrível resultado de episódios como Tlatlaya ou Ayotzinapa (nos quais estudantes secundaristas de foram chacinados) aprofundou essa desconfiança.

Criou-se um beco sem saída. A crise da violência no México se aprofundou e não existe mais autoridade civil capaz de enfrentar o problema mediante prevenção ou da punição. É por isso que as forças armadas são usadas. Porém, esse uso constitui erro crasso, porque os militares não são policiais treinados para essa tarefa complexa e específica. Ademais, tal política os expõe (os militares) a uma interação permanente com o crime organizado, que conduz à corrupção e ao desvirtuamento de sua missão.

No México, o colapso das forças policiais, corroídas até a medula pelo narcotráfico, forçou os militares a ocupar espaços cada vez maiores de segurança. “Nossos soldados não podem fazer mais. Proporcionalmente ao nosso território e população, somos o menor exército do mundo”, afirmou o general Salvador Cienfuegos, titular da  Secretaría de la Defensa Nacional .

Por parte do tecido civil não há mais corresponsabilidade, apenas a inação, o que gera insatisfação notável entre os militares. Há soldados que protegem escolas em Acapulco, ou que fazem o trabalho da polícia municipal, algo que não deveria ser função militar A essa sobrecarga desvirtuada de trabalho, a ausência de um quadro legal de ação é adicionada. Apesar de o exército ter se mobilizado há mais de uma década, nenhum governo quer regular esse uso que se tornou, na prática, de longo prazo, sem data para acabar.

Em outras palavras, o uso das forças armadas no México em segurança pública, assim como na Colômbia, é um completo fracasso: aumentou a violência e a insegurança, incrementou os atentados aos direitos humanos, aumentou a corrupção entre os militares, provocou grande desgaste e insatisfação na tropa e, sobretudo, os desviou de sua função de defesa da pátria e da soberania.

Enfim, as forças armadas mexicanas, por pressão do governo dos EUA, são hoje usadas politicamente como mera força auxiliar dos órgãos de segurança norte-americanos.

O ex-chanceler Celso Amorim teme por esse uso político aqui no Brasil. Afirma ele, na citada entrevista, “a utilização política é grave e (os militares) não estão satisfeitos. Acho que isso está sendo imposto. E o aspecto que seria mais trágico para o Brasil, entre outros, é uma espécie de guerra das Forças Armadas com o narcotráfico. Seria uma desvirtuação da missão das Forças Armadas e um enfraquecimento da missão que é defender o Brasil, o pré-sal, as fronteiras, programas de tecnologia avançada… O que se espera das Forças Armadas é a defesa da nação. Mas claro que há sempre aqueles que têm saudades daquelas Forças Armadas nas ruas.” (grifos nossos).

De novo, não se trata de mera lucubração sem nenhum fundamento ou de “teoria da conspiração”. A ameaça é concreta. Não temos dúvida de que a combinação da Lava Jato, que está destruindo o braço empresarial da Estratégia Nacional de Defesa (assentado em empresas privadas, como a Odebrecht, a Embraer, etc.) com a Emenda Constitucional nº 95, de 2016, que reduzirá drasticamente o investimento estatal nessa área, poderá fazer o Brasil retroceder à década de 1990, quando a tônica dada pelo neoliberalismo acrítico era a do desarmamento do país.

Ademais desses fatores econômicos, é preciso lembrar que o Exército dos EUA participou, a convite do governo brasileiro, de um exercício militar conjunto que foi realizado, em novembro de 2017, na tríplice fronteira amazônica entre Brasil, Peru e Colômbia. Tal fato revela um fator político preocupante para a soberania nacional, no campo da defesa e da indústria de defesa.

Tratou-se de uma decisão inédita na história militar recente do Brasil, que causa estranheza. O nosso país, até o presente governo ilegítimo, vinha investindo na gestão soberana da Amazônia, em parcerias com países da América do Sul, estabelecidas em mecanismos de cooperação regionais, particularmente os da Unasul e os da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Assim, esse convite a uma superpotência estrangeira, que não faz parte da Bacia Hidrográfica da Amazônia, representa um “ponto fora da curva”, na tradição de afirmação da soberania nacional em região estratégica para o país.

Na realidade, esses exercícios vêm na esteira de uma série de iniciativas bilaterais que, a nosso ver, fazem parte de uma estratégia do governo ilegítimo de reaproximação subalterna aos EUA, tanto no campo da política externa, quanto no campo da política de defesa.

Nesse diapasão, o Ministério da Defesa do Brasil e o Departamento de Defesa dos EUA assinaram o “Convênio para Intercâmbio de Informações em Pesquisa e Desenvolvimento”, ou MIEA (Master Information Exchange Agreement), na sigla em inglês. Com tal decisão, o governo do golpe investirá na cooperação com os EUA, como forma de “desenvolver” nossa indústria de defesa. Na prática, isso significa renunciar a ter real autonomia no campo do desenvolvimento industrial e tecnológico da defesa nacional.

Ao que tudo indica, setores das Forças Armadas, hoje hegemônicos, renunciaram ao desenvolvimento tecnológico relativamente autônomo e, agora, apostam numa relação de dependência com os EUA para o seu reaparelhamento.

A assinatura do referido Convênio, bem como outras iniciativas recentes, parecem inserir-se dentro do quadro de uma nova estratégia de inserção do Brasil, na órbita dos interesses dos EUA. Tal nova estratégia tende a minar as diretrizes, estabelecidas há vários anos, de o Brasil articular uma estratégia de defesa própria e conjunta do subcontinente sul-americano, mediante, entre outros mecanismos, do Conselho de Defesa da Unasul.

Saliente-se que a principal vulnerabilidade que temos hoje, no campo da soberania nacional, tange justamente à inexistência de uma Base Industrial e Tecnológica de Defesa (BITD) capaz de aparelhar adequadamente as Forças Armadas.

A BITD é fator fundamental do que o ex-ministro da Defesa, Embaixador Celso Amorim, chamava de “Grande Estratégia”, que realça a articulação das políticas externa e de defesa. Remete igualmente a outro projeto estratégico do Estado: seu modelo de desenvolvimento. A BITD pode e deve ser um pilar central de um novo projeto de desenvolvimento focado na indústria de alta tecnologia e na inovação, sob indução e atento acompanhamento do Estado.

Não obstante, as ações do governo atual do Brasil vão, como vimos, na direção oposta e representam investimentos numa relação assimétrica e de dependência, em relação aos EUA, que dificilmente produzirão os efeitos benéficos esperados.

Dentro desse novo quadro de assumida dependência, a intervenção federal no Rio, com o uso ostensivo das forças armadas numa função que as desviam de sua missão principal (a defesa da soberania nacional), faz todo sentido para os interesses do governo ilegítimo e dos EUA.

Conclusões Provisórias

Comprovar efetivamente que há ingerências geopolíticas, ainda que indiretas, nos recentes e graves acontecimentos ocorridos no Brasil é tarefa inglória. Sempre se pode argumentar que os fatos foram consequência exclusiva de fatores internos e que quaisquer especulações sobre influências externas indevidas não passam de ridículas teorias da conspiração.

Muitas vezes, a comprovação dessas ingerências acaba se dando muito a posteriori, como ocorreu com o golpe militar de 1964, no Brasil. Assim, se comprovou, muitos anos depois, o que todo o mundo sabia.

Não obstante, as evidências coletadas até agora são, como vimos, robustas o suficiente para levantar suspeitas racionais sobre os temas aqui elencados. Resta saber se haverá disposição política para investigar os casos. Provavelmente, não [6].


[2] Vídeo1-pronunciamento, com legendas, de Kenneth Blanco, então Vice Procurador Geral Adjunto do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ)- https://youtu.be/tbPLM5onjLk, aos 8m8s.

[4] Vídeo1-pronunciamento, com legendas, de Kenneth Blanco, então Vice Procurador Geral Adjunto do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ)- https://youtu.be/tbPLM5onjLk, aos 9m47s.

A arte de virgular

Por: Ana Margarida Setti Rosa – Jornalista, Escritora, Professora de Redação.

Essa tal arte de virgular, ou seja, de colocar vírgula no texto, mais do que conhecimento gramatical, exige sensibilidade. É preciso estar atento ao fluir da frase. Se interrompemos o fluxo natural do raciocínio expresso por escrito, colocando a vírgula de forma errada, a frase resulta truncada, até sem sentido.Veja os exemplos a seguir:

O Presidente da República, nomeou o Ministro do Trabalho.

Tente não repetir, os mesmos erros.

Uma vírgula mal colocada atrapalha o entendimento agradável do pensamento. Mesmo que não tenhamos consciência clara disso, sentimos certo desconforto ao ler uma frase assim. De acordo com a gramática, isso ocorre porque não se pode separar o que está sintaticamente ligado: sujeito-verbo-complemento. Por isso:

Não se usa vírgula entre sujeito e verbo (primeira frase).

Não se usa vírgula entre verbo e complemento (segunda frase).

FALAR E ESCREVER

Mas a vírgula deve ser usada em muitas outras situações. Trata-se, assim como os demais sinais de pontuação, de um precioso recurso que utilizamos para sinalizar ao leitor como a frase deve ser lida e entendida.

Quando conversamos com alguém, face a face, fazemos pausas para a respiração, gesticulamos, somos veementes, valorizamos determinada palavra ou frase com a ênfase apropriada, pomos vibração, ou não, no que dizemos…

Nos textos, contudo, para obter o mesmo efeito, temos de recorrer à pontuação, em especial à vírgula, pois seu uso permite a correta entonação e interpretação da frase escrita, sinalizando quando se deve fazer uma pausa ligeira na leitura.

INTERCALAÇÕES

Ao sinalizar essa pausa, a vírgula ajuda o leitor a perceber a ocorrência de intercalações na estrutura básica da frase – aquela do sujeito-verbo-complemento –, sem interromper o fluxo natural do pensamento. Veja como isso ocorre nos seguintes exemplos:

O resultado do exame, ao que tudo indica, logo será publicado.

A vacinação, mesmo em doses fracionadas, ainda é o melhor sistema de prevenção.

A leitura da ideia principal (em negrito) ocorre de forma natural, sem que a intercalação (em itálico), por estar entre vírgulas, atrapalhe a compreensão da frase. Ao contrário, a separação com vírgulas ajuda a entender a frase de maneira mais completa, pois indica que há uma explicação, um esclarecimento, uma condição etc. associada à ideia principal. A variedade de intercalações é grande, vamos conhecer as mais comuns…

EXPRESSÕES EXPLICATIVAS

As intercalações aqui são aquelas expressões corretivas, explicativas, tais como isto é; ou melhorquer dizer; data vênia; ou sejapor exemplo etc. Como tais, devem ser colocadas entre vírgulas.

O professor, a meu ver, deve sempre usar uma linguagem clara, ou seja, de fácil compreensão.

CONJUNÇÕES  

Certas conjunções, quando intercaladasprepostas (postas antes) ou pospostas (postas depois) devem ser acompanhadas de vírgulas.

Empenhava-se no estudo com afinco e, por isso, conseguia bons resultados.

A verdade revelada, contudo, não fazia sentido.

Tratava-se, portanto, de fake news.

Entretanto, seguiu em frente.

O ano foi difícil; não me queixo, porém.

SUBORDINADAS

Nestes exemplos, separa-se com vírgula da oração principal (em negrito) a oração subordinada (adverbial e reduzidas de gerúndio, particípio ou infinitivo, em itálico), que equivale a uma intercalação explicativa.

Quando chamado a comentar, fez um grave pronunciamento.

Sendo contrário, votou pela reprovação do projeto.

Abandonado pelos amigos, ele se virou como pôde.

Por ter parentesco com o réu, declarou-se impedido de julgar.

Os alunos colocaram-se em fila, atendendo ao sinal do recreio.

CONDICIONAL

Também se separa da oração principal (em negrito), com vírgula, a oração subordinada adverbial (em itálico), que funciona como uma intercalação condicional.

Ainda que o provoquem, não reage com violência.

Ele deve concluir o estudo hoje, se for possível.

VOCATIVO E APOSTO

Observe, nos exemplos a seguir, que se deve usar vírgula para separar os vocativos (primeira e segunda frase) e os apostos (terceira e quarta frase). Repare que a lógica de colocar a vírgula para organizar a frase principal, sem interromper sua fluência, se mantém. No caso do vocativo, em particular, a vírgula ainda ajuda a produzir um efeito dramático.

Amigos, é chegada a hora de buscar o entendimento.

Acorda, Brasil.

Aristóteles, o grande filósofo, foi o criador da Lógica.

O homem, que é um ser mortal, deve se preocupar em deixar um legado.

PALAVRAS ISOLADAS

Aqui, a ideia é dar ênfase a uma afirmação, um conceito, uma tese. Palavras ou expressões intercaladas na frase principal conseguem alcançar esse efeito com o uso das vírgulas.

Compete ao cidadão, sim, exigir do político o cumprimento das promessas de campanha.

Ao político, de fato, cabe a responsabilidade de legislar em prol do bem de todos.

O USO MAIS COMUM

As vírgulas, portanto, são muito úteis para indicar a ocorrência de intercalações dos mais variados tipos na frase principal, sem interromper o fluxo natural do raciocínio expresso por escrito.

Mas a vírgula se destaca naturalmente como recurso usado para organizar e ordenar uma sequência de termos ou de orações em um período. Veja os exemplos a seguir:

Chegou ao Rio de Janeiro, visitou o Pão de Açúcar, levou os filhos ao Jardim Botânico, passeou pela Avenida Atlântica, conheceu o novíssimo Museu do Amanhã.

Simplicidade, clareza, objetividade, concisão são qualidades a serem observadas na redação formal.

Assim, como explica a gramática, usa-se a vírgula para separar orações paralelas justapostas, ou seja, não ligadas por conjunção (primeira frase) e para separar termos independentes entre si (segunda frase).

O MAIS ELEGANTE

A vírgula também pode ser empregada para indicar a elipse, ou seja, a ocultação de verbo ou de outro termo usado anteriormente, ajudando a estruturar a frase de forma mais sofisticada. Observe:

João prefere os livros e Carlos, os esportes. 

(João prefere os livros e Carlos prefere os esportes.)

No horizonte distante, uma promessa de navio.

(No horizonte distante havia uma promessa de navio.)

O MAIS PRÁTICO

Quem não conhece este uso da vírgula? Com o objetivo de organizar e deixar bem claro o que está expresso por escrito, usamos a vírgula para separar os topônimos (nome do lugar) em datas e endereços.

São Paulo, 23 de abril de 1999.

Rua Nascimento e Silva, 107.

POR FIM, ALGUMAS PECULIARIDADES

  • No caso das conjunções mas e pois, importante lembrar que elas requerem continuidade e não pausa ligeira. Assim: Ele veio rápido, mas não ficou muito tempo. (e não Ele veio rápido, mas, não ficou muito tempo.) / Riu muito da situação, pois foi um acontecimento inusitado. (e não Riu muito da situação, pois, foi um acontecimento inusitado.)
  • Em uma única situação, quando tem o sentido de por conseguinteportanto, a conjunção pois vem entre vírgulas: Ele está em outra cidade e não pode, pois, saber o que acontece aqui.
  • Não se usa vírgula antes de eou e nem, com algumas exceções: 1) Quando o e liga orações de sujeitos diferentes: O menino respondeu com um sorriso, e a menina, com uma piscadela. / 2) Quando o e e o nem estiverem repetidos na frase, visando dar ênfase ou sinalizar uma pausa mais marcada: Ele tropeçou, e caiu, e se machucou… / Ninguém o acompanhou, nem os irmãos, nem os amigos, nem a namorada! / 3) Quando se quer dar ênfase a uma afirmação ou deixar mais marcada uma pausa na frase: Ela contou toda a história, e pôs muita emoção nisso. / Vamos sair agora, ounão? Vou entrar neste mar, nem que fique congelada!
  • A colocação da vírgula é opcional quando o termo anteposto – em geral, advérbios e adjuntos adverbiais – se constitui em uma única palavra. Mas nada impede que coloquemos a vírgula, especialmente se a intenção for realçar o termo: Ontem a CPI decidiu convocar mais um depoente. Ou Ontem, a CPI decidiu convocar mais um depoente. / Depois vamos ao show. Ou Depois, vamos ao show. / Repentinamente disse tudo que o incomodava. Ou Repentinamente, disse tudo que o incomodava.

VÍRGULA: APROVEITE ESSE RECURSO COM MUITA ARTE!

Nove conselhos para professores novatos em Seus Devidos Cargos

Adaptado da obra de Marco Mello

Parabéns: finalmente você completou a sua Jornada do Cientista e conseguiu um cargo acadêmico! Mas e agora?

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Travolta pulp fiction – Às vezes é difícil saber como começar a fase independente da carreira.

A gente passa tanto tempo trabalhando para atingir uma determinada meta, que, depois que a alcançamos, ficamos meio perdidos. Quem nunca sentiu um vazio existencial logo após defender uma monografia, mestrado ou doutorado?

Imagina então como você se sente logo após vencer um concurso para professor? Esses momentos são como pequenos lutos e deveriam ser vividos como tal. Um processo de luto te ajuda a fazer um balanço geral da etapa que encerrou e planejar a etapa que está começando.

Bom, no caso da Jornada do Cientista, depois de conseguir um emprego acadêmico estável, a sensação de luto é bem forte. E, para piorar, você renasce para uma vida bem diferente ao tomar posse do cargo. A diferença entre o dia a dia de um postdoc e de um professor é enorme.

Por isso, é preciso pensar com cuidado sobre os seus próximos passos.

Aqui vale fazer um adendo. Quando falo em fim da jornada, é bom deixar claro que não estou me referindo ao fim da carreira, mas sim ao fim da fase formativa e começo da fase independente dela.

Na fase independente, surgem novos desafios e tentações. O principal desafio é continuar sendo um cientista original e produtivo, mesmo tendo um bom salário garantido para o resto da vida. Além disso, há vários problemas de gerenciamento nas nossas universidades, que jogam baldes de água fria em jovens cientistas.

Mas há como evitar uma gripe apesar de toda essa água fria. Quero dar alguns conselhos para você, que acaba de ser promovido de postdoc a novato. Já tive mais de um emprego acadêmico, além de alguns empregos formais e informais (leia-se “bicos”, rs) no mundo real. Meu objetivo é ajudá-lo a não cometer os mesmos erros que eu e outros colegas cometemos. Assim, você ficará livre para cometer erros inteiramente novos!

Como de costume, vou partir de três premissas:

Você é um bom cientista;
Você escolheu o seu concurso com calma;
Você entende a importância de manter a mente de principiante.
Bom, supondo que você atenda essas premissas, seguem os meus conselhos.

(1) Não deixe de cuidar de si mesmo

Cientistas costumam se esquecer de que não são feitos apenas de mente, mas também de corpo e espírito (em um sentido amplo). Além disso, muitos amam tanto a ciência, que deixam de cultivar a vida pessoal, vivendo “24/7” em função do trabalho. O preço desse erro pode ser o burnout, uma psicopatologia ou mesmo a morte. Sério.

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“Memento mori” – sabedoria estóica. 

Okay, na etapa da pós-graduação, durante a qual você tem que alcançar um altíssimo rendimento e passar por uma profunda transformação, é muito importante dar um gás e fazer sacrifícios. A competição na carreira acadêmica é alta, então só progride quem está disposto a trabalhar duro.

Você vai, sim, ter férias bem menores do que na graduação (mas tire férias!). Você vai, sim, perder alguns eventos familiares importantes (mas não todos!). Você vai, sim, trabalhar longas horas em algumas semanas mais puxadas (mas não em todas!). Contudo, mesmo um pós-graduando tem que pisar no freio regularmente e cuidar da própria saúde.

Depois que você virar professor então, e não precisar mais fazer sacrifícios desse tipo, cuide ainda melhor de si mesmo. Planeje bem as suas atividades profissionais e pessoais e tenha disciplina para seguir o plano. Cultive a sua vida social, não negligencie a sua espiritualidade, envolva-se com algum hobby, devolva algo à sociedade em um voluntariado, pratique atividade física, alimente-se corretamente para a sua idade e estilo de vida, descanse bem e visite a sua médica regularmente.

Acredite, não vale a pena sacrificar a sua saúde nem mesmo para construir o grupo de pesquisa dos seus sonhos. Além disso, uma vida multidimensional é mais feliz e produtiva do que uma vida workaholic.

(2) Nunca pare de estudar

No conselho 1, recomendei que você, novato, pise no freio e cuide com carinho da sua vida pessoal. Isso significa buscar o equilíbrio, mas sem deixar a peteca cair.

“Não pare na pista!” – Raul Seixas

Um cientista profissional nunca pode parar de estudar. Assim, se você quiser continuar fazendo ciência relevante, antenada com grandes problemas desafiadores de interesse internacional, deve procurar aprender coisas novas e se atualizar constantemente. Estudar, acima de tudo, deve continuar a ser um prazer, um vício, nunca uma obrigação.

“Depois que virei professor, não tenho mais tempo para nada!”

 

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Professora novata aprendendo a lidar com suas novas atribuições profissionais.

Sim, meu caro novato, #tamojunto. Um cargo de professor envolve milhões de atividades. Não importa. Mesmo que demore um ou dois anos, você vai ter que se organizar e aprender a gerenciar o seu tempo “like a boss”. Diminua o número, mas não a diversidade, das atividades que você desenvolve. Aprenda a dizer “não”.

O importante é você separar algumas horas preciosas da sua semana para o estudo. Não estou falando apenas da leitura de artigos, parte do feijão-com-arroz acadêmico. Estou falando de um estudo mais profundo, como por exemplo aprender uma nova análise ou teoria que acaba de ser inventada. Ou, finalmente, estudar de verdade estatística e programação.

Faixas pretas precisam, mais do que os aspiras, ser capazes de aprender novas habilidades sozinhos, sem esperar por cursos milagrosos. Continue a ser uma referência de cultura e autonomia para os mais novos.

(3) Tenha paciência.

Assim que conquistamos o nosso primeiro emprego acadêmico, estamos famintos por produzir em pesquisa, orientação, ensino e extensão. Alguns chegam ao cargo famintos também por administração. Foque essa energia criativa para desenvolver as suas atividades da melhor maneira possível.

Paciência, acima de tudo.

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“Patience, young grasshopper”. 

Para começar, não saia pegando milhões de atribuições logo de cara. Experimente as possibilidades que o cargo lhe oferece, mas com cuidado, planejando cada passo. Continue estabelecendo metas de curto, médio e longo prazo para a sua carreira, e selecione as suas atividades de acordo com essas metas.

Entenda também que a sua universidade ou instituto de pesquisa provavelmente já existiam antes de você nascer. Cada instituição tem uma história, além de regras próprias e um modus operandi. Pode até ser que muita coisa precise mudar na sua universidade. Talvez ela seja mesmo arcaica, defasada, injusta etc. Mas você não vai conseguir transformar uma cultura organizacional do dia para a noite. E tampouco vai mudar mentes e corações no grito. Conheça bem o sistema antes de tentar hackeá-lo.

Outro choque de realidade muito comum em universidades brasileiras é um professor ser contratado, apresentar-se para a missão mega-empolgado e descobrir que sequer arrumaram uma mesa para ele, que dirá um gabinete ou laboratório. Isso, em universidades onde alguns silverbacks chegam a ocupar dois, três ou quatro módulos, formando verdadeiros feudos. Contenha a sua frustração e tente contornar a situação da melhor forma possível.

(4) Respeite os mais velhos

“Meus colegas sêniores não me deixam trabalhar!”

Sim, infelizmente essa é uma triste realidade em muitas universidades. Alguns colegas mais velhos se ressentem da atenção que os rising stars recebem e passam a boicotá-los. Esse é um sintoma claro de que a ciência brasileira ainda não está madura.

Cada nova geração chega ao mercado de trabalho muito melhor do que a anterior, porque o país ainda está aprendendo a fazer ciência de nível internacional, fora da bolha endogâmica em que vivemos por décadas. Portanto, é raro encontrar no Brasil a figura do grão-mestre invencível, que desde cedo aprendeu a fazer as coisas do jeito certo e, além disso, acumulou grande experiência. Alguns novatos já entram no primeiro cargo com currículos melhores do que os dos sêniores, pelo menos em qualidade.

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Em países líderes da ciência mundial, é improvável um novato ter um currículo melhor do que o de um silverback

Isso faz com que esses novatos comecem no primeiro emprego arrogantes, incapazes de ouvir os conselhos dos mais velhos. Pense que, no mínimo, um colega sênior conhece a instituição melhor do que você. E, mesmo que ele faça uma ciência menos atualizada do que você, provavelmente tem muita bagagem acumulada sobre como funciona a universidade onde você trabalha, assim como a Academia no Brasil. Você tem, sim, o que aprender com os mais velhos.

Quanto aos colegas sêniores que boicotam novatos por inveja, a única solução é esperar por sua aposentadoria. Evite chamar a atenção deles, nunca aceite os “favores” que oferecem e não dependa dos recursos da própria universidade para fazer pesquisa e extensão. Muitas vezes os comitês internos são dominados por esses Sarumans. Desde o primeiro semestre no emprego, busque verbas em editais de fomento externos, promovidos por agências governamentais, ONGs, OIs, empresas e mecenas em geral.

Mas lembre-se de que há também Gandalfs entre os sêniores, sempre dispostos a aconselhar, ensinar e acolher. Procure identificá-los e aprenda com sua experiência, pois eles podem te proteger e guiar nos primeiros anos. Grão-mestres com bom coração são um verdadeiro tesouro!

E, mais importante, quando você próprio se tornar o silverback, não se transforme nos monstros que sempre criticou e combateu.

(5) Sirva à sua comunidade

No conselho 3, falei sobre a importância de não querer abraçar o mundo com as pernas. Mas há um outro lado nessa questão.

Saiba também servir quando necessário e ajudar em atividades que não te dão retorno pessoal direto e tampouco contribuem para você atingir as suas metas. Um bom exemplo são os cargos administrativos menores, como membro de colegiado de pós-graduação, câmara departamental ou congregação de instituto. Comece a considerar esse tipo de assento depois do probatório, se possível.

Lembre-se de que você faz parte de uma comunidade. A infraestrutura que você usa só existe porque alguém trabalha para mantê-la. Uma hora será a sua vez de contribuir. Só não deixe a comunidade consumir a sua individualidade. Dose sabiamente o sim e o não.

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Reunião de câmara departamental, evidenciando a harmonia transcendental que só pode ser encontrada dentro de uma universidade pública brasileira. 

Outro ponto importante é multiplicar as bençãos que você recebeu ao longo da sua jornada. Se você conquistou o título de doutor e conseguiu se estabelecer, certamente contou com vários mentores e ajudantes na sua fase formativa. Retribua o favor não diretamente a eles, mas distribua-o aos colegas mais novos ou mais necessitados. A cortesia e a gratidão devem construir uma rede que se expande e, ao poucos, conecta a todos.

(6) Estude as regras do jogo

É muito comum a universidade funcionar na base de boatos e lendas. Por isso o nosso dia a dia é tão caótico.

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Não acredite em conversas de corredor. Sempre consulte as regras do jogo nos documentos oficiais da sua universidade. 

Em alguns lugares, descobrir informações básicas, como a sua carga didática mínima obrigatória, é mais complicado do que deveria ser. Se você perguntar sobre uma determinada regra a três colegas diferentes, ouvirá três respostas diferentes. E, algumas vezes, certos colegas mentirão deliberadamente para você, a fim de aumentarem a sua carga de trabalho e diminuírem a deles.

Bom, procure descobrir quais colegas entendem realmente de quais partes da burocracia interna. Em caso de dúvidas, fale primeiro com eles. Mas não acredite cegamente no que dizem, pois mesmo eles também podem se contaminar com boatos.

Pergunte a esses gurus não apenas sobre as regras, mas especialmente sobre as fontes delas. Ou seja, os regimentos que determinam o funcionamento da universidade. Algumas instituições disponibilizam esses documentos no site oficial. Se o sistema de buscas não for eficiente, tente procurar documentos em páginas específicas. Por exemplo, informações relacionadas aos seus direitos, deveres e benefícios como professor devem, provavelmente, estar compiladas na página da Pró-Reitoria de Recursos Humanos.

E torça para dar a sorte do seu departamento e programa de pós-graduação terem bons secretários. Eles são os seus maiores aliados ao desbravar a selva burocrática.

(7) Conheça melhor a sua instituição antes de ocupar cargos administrativos

Infelizmente, devido à estrutura administrativa amadora da maioria das universidades brasileiras, os cargos de chefia via de regra não são levados a sério. Para começar, muitos são geridos por nós mesmos e não por administradores profissionais. Nós sequer contamos com a ajuda de administradores, contadores ou advogados, quando temos que gerir recursos humanos.

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Reuniões de órgãos colegiados podem ser mortais para quem não conhece direito seus colegas. 

Em geral, apenas os cargos maiores, de chefe de departamento para cima, dão benefícios concretos aos seus ocupantes, como redução de carga didática, bônus salarial e “créditos” para progressão vertical. Cargos de reitor, por exemplo, podem ainda servir como trampolim para a política partidária. Alguns reitores com boa circulação em Brasília são nomeados ministros de Ciência & Tecnologia ou Educação, por exemplo. Outros chegam a virar senadores ou presidentes.

Já os cargos menores, de chefe de departamento para baixo, são vistos mais como posições de síndico. Dessa maneira, é comum novatos serem coagidos a ocupar esses cargos menores, que ninguém quer, tão logo entram na universidade. Ao chegar, cheio de entusiasmo para escrever artigos ground-breaking e dar aulas inspiradoras, você pode ser designado, por exemplo, para ajudar a escolher a nova marca de papel higiênico do instituto.

Às vezes, querem empurrar novatos até mesmo para cargos-chave da universidade, como coordenador de pós-graduação. Alguém que acabou de sair do doutorado e chegou à sua primeira instituição, por melhor que seja o seu registro de publicações, não deveria ocupar sequer um assento em um órgão colegiado.

“Mas, você não falou que eu devo servir à minha comunidade?”

Sim, mas no tempo certo, meu caro novato. Não existe essa história de começar logo para ir aprendendo a política interna no calor da batalha. Por três razões: (i) você não conhece direito os seus colegas, (ii) você não conhece direito os protocolos oficiais e informais da sua instituição, e (iii) você precisa de sossego nos primeiros anos para montar o seu laboratório e se acostumar à nova rotina.

(8) Não fique bitolado

A carreira acadêmica oferece vários tipos de atividades fascinantes. Então por que atuar só na pesquisa?

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Jovem novata experimentando mais de uma possibilidade na carreira. 

É muito comum novatos passarem em concursos principalmente com base em sua produção científica. Assim, naturalmente, esse costuma ser o foco de trabalho da maioria. Até mesmo porque o sistema não incentiva tão bem outros tipos de atividade.

Mas quem vira professor universitário acaba tendo que atuar pelo menos parcialmente também nos outros quatro pilares da carreira. No mínimo, você terá que dar aulas, a não ser que tenha prestado concurso para um instituto de pesquisa e não uma universidade. Em ambos os casos, você também terá que servir em cargos administrativos, como dito no conselho 5.

Experimente algumas das atividades que surgem com o novo cargo. É bem provável que você areje as suas ideias e se torne um cientista com uma visão de mundo menos estreita. Você vai aprender a valorizar o trabalho dos colegas que ocupam nichos diferentes do seu dentro da universidade.

E pode ser que você descubra que tem talento para outras coisas além da pesquisa, como a divulgação científica e a curadoria de museus, por exemplo.

(9) Cuidado com brigas e fofoca

Como dito no conselho 3, toda instituição tem uma história. Infelizmente, nem sempre ela é bonita.

O que mais tem na Academia, assim como em outras carreiras competitivas, são brigas de egos. Alguns departamentos ou institutos chegam a se dividir em “gangues”, que são formadas por colegas que se ajudam entre si e boicotam os membros de gangues rivais. Só faltam as pichações nas paredes e os latões de lixo pegando fogo.

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Evite as gangues. 

Você, novato, vai reparar que, antes mesmo de pisar na sua nova instituição, algum Don Corleone (ou seu consiglieri) vai tentar te cooptar para a gangue dele. É claro que há também colegas hospitaleiros e bem intencionados que vão querer apenas te dar as boas-vindas e te ajudar a se ambientar. O segredo é aprender a diferenciar os primeiros dos segundos. Dica: evite quem vê o mundo em preto-e-branco.

Seja sociável, apresente-se aos novos colegas, almoce com alguns, tome café com outros. Mas maneire nos cafezinhos e tente manter a sua independência. Lembre-se de que está em um ambiente de trabalho e não no churrasco da família.

Acima de tudo, cuidado com a fofoca. Assim, quando um colega falar mal do outro para você, ouça, mas não curta nem compartilhe. Desconfie também dos colegas “vaselina”, que acendem velas ao mesmo tempo para Deus e o Diabo e nunca se posicionam, mesmo diante de injustiças. Ser neutro é muito, muito diferente de ser escorregadio.

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Você vai encontrar vários tipos de colegas na Universidade. 

Acima de tudo, não valorize as pessoas apenas pelo que elas produzem, mas também por como elas tratam os outros.

Conselho final

Seja como a água – bruce lee

Referência

https://marcoarmello.wordpress.com/2018/03/15/conselhosnovatos/

O Deus de Einstein

Quando, em 1921, perguntado pelo rabino H. Goldstein, de New York, se acreditava em Deus, o físico Albert Einstein respondeu: “Acredito no Deus de Espinosa, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pelo destino e pelas ações dos homens“.

Einstein enfrentou críticas, e o cardeal O’Connel, de Boston, publicou uma declaração na qual dizia que a teoria da relatividade “encobre com um manto o horrível fantasma do ateísmo, e obscurece especulações, produzindo uma dúvida universal sobre Deus e sua criação”. Hoje o Papa parece conviver bem com a idéia de Deus ser uma força por trás do Big Bang, conciliando (na medida do possível) ciência e religião.

Seis anos depois, em uma carta escrita a um banqueiro do Colorado, Einstein explica: “Não consigo conceber um Deus pessoal que influa diretamente sobre as ações dos indivíduos, ou que julgue, diretamente criaturas por Ele criadas. Não posso fazer isto apesar do fato de que a causalidade mecanicista foi, até certo ponto, posta em dúvida pela ciência moderna. Minha religiosidade consiste em uma humilde admiração pelo espírito infinitamente superior que se revela no pouco que nós, com nossa fraca e transitória compreensão, podemos entender da realidade. A moral é da maior importância – para nós, porém, não para Deus“.

No artigo Religião e Ciência, que faz parte do livro Como vejo o mundo, publicado em alemão em 1953, Einstein escreve: “Todos podem atingir a religião em um último grau, raramente acessível em sua pureza total. Dou a isto o nome de religiosidade cósmica e não posso falar dela com facilidade, já que se trata de uma noção muito nova, à qual não corresponde conceito algum de um Deus antropomórfico (…) Notam-se exemplos desta religião cósmica nos primeiros momentos da evolução em alguns salmos de Davi ou em alguns profetas. Em grau infinitamente mais elevado, o budismo organiza os dados do cosmos (…) Ora, os gênios religiosos de todos os tempos se distinguiram por esta religiosidade ante o cosmos. Ela não tem dogmas nem Deus concebido à imagem do homem, portanto, nenhuma Igreja ensina a religião cósmica. Temos também a impressão de que hereges de todos os tempos da história humana se nutriam com esta forma superior de religião. Contudo, seus contemporâneos muitas vezes os tinham por suspeitos de ateísmo, e às vezes, também, de santidade. Considerados deste ponto de vista, homens como Demócrito, Francisco de Assis e Spinoza se assemelham profundamente”.

Quem foi Espinosa, a inspiração para Einstein?

Bento de Espinosa foi um dos grandes filósofos racionalistas do século XVII, juntamente com René Descartes. Nasceu nos Países Baixos em uma família judaica portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico moderno. Foi profundo estudioso da Bíblia, de obras religiosas judaicas e de filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Demócrito, Epicuro e Lucrécio.

Foi excomungado pela Igreja devido aos seus pensamentos em relação a Deus. Espinosa foi considerado como maldito por muitos anos após sua morte. Quem recuperou sua reputação foi o crítico Lessing em seus diálogos com Jacobi, em 1784. Na seqüência, o filósofo foi citado, elogiado e inspirou pessoas como os teólogos liberais Herder e Schleiermacher, o poeta católico Novalis e o grande Goethe.

Em Haia, onde morreu, foi construído um monumento em sua homenagem, assim comentado por Ernest Renan em 1882:

“Maldição sobre o passante que insultar essa suave cabeça pensativa. Será punido como todas as almas vulgares são punidas: pela sua própria vulgaridade e pela incapacidade de conceber o que é divino. Este homem, do seu pedestal de granito, apontará a todos o caminho da bem-aventurança por ele encontrado; e por todos os tempos o homem culto que por aqui passar dirá em seu coração: Foi quem teve a mais profunda visão de Deus”.

 

A VISÃO DE DEUS DE ESPINOSA

Espinosa defendeu que Deus e Natureza eram dois nomes para a mesma realidade. Ele afirmou que Deus sive Natura (“Deus ou Natureza” em latim) era um ser de infinitos atributos, entre os quais a extensão (sob o conceito atual de matéria) e o pensamento eram apenas dois conhecidos por nós.

Deus não é entendido por Espinosa como um Ser à parte e/ou externo ao mundo, que o governa como um engenheiro ou habilidoso artesão, mas sim, de forma muito sutil e holística, a Divindade da Ordem Eterna da Natureza, muito superior ao entendimento fragmentado e antropomorfista humano. É, enfim, o Grande Uno que se expressa nos Muitos a que se faz a partir de Si mesmo. Uma visão estranha ao modo ocidental, mas bem de acordo com as mais sofisticadas concepções orientais do Divino.

Will Durant estabelece a seguinte comparação entre o sistema ético de Espinosa e os sistemas clássico e cristão: “Hoje só subsistem três sistemas de ética, três concepções de caráter ideal e de vida moral. Uma é de Buda e Jesus, que dá preponderância às virtudes femininas; que considera todos os homens igualmente preciosos; que resiste ao mal lhe contrapondo o bem; que identifica virtude com amor e se inclina, em política, para a ilimitada democracia. Outra é a ética de Maquiavel e de Nietzsche, que dá preponderância às virtudes masculinas, que aceita a desigualdade dos homens; que se deleita nos riscos do combate, da conquista e do mando; que identifica virtude com poder e exalta a aristocracia hereditária. Uma terceira é a de Sócrates, Platão e Aristóteles, que nega a aplicabilidade universal quer das virtudes masculinas, quer das virtudes femininas; que considera que somente os espíritos maduros e bem informados podem decidir, de acordo com as circunstâncias, quando deve imperar o amor e quando deve imperar o poder; que identifica virtude com inteligência e advoga no governo uma mistura de democracia e de aristocracia. O que distingue a ética de Espinosa é que ela reconcilia inconscientemente essas filosofias aparentemente hostis e as enlaça numa unidade harmoniosa e nos apresenta, desse modo, um sistema de moral que é o do pensamento moderno”. A filosofia de Espinosa tem muito em comum com o estoicismo, mas difere muito dos estóicos num aspecto importante: ele rejeitou fortemente a afirmação de que a razão pode dominar a emoção.

Outro pensador, que eu coloco no mesmo nível de Espinosa, é Eckhart de Hochheim (1260– 1327), mais conhecido como Mestre Eckhart (em reconhecimento aos seus títulos acadêmicos). Foi um frade dominicano, conhecido por sua obra como teólogo e filósofo, mas especialmente por suas visões místicas.

O psicólogo Carl Jung escreve sobre ele em seu livro “Aion: Estudos sobre o simbolismo do Si- mesmo“:

A teologia de Mestre Eckhart conhece uma “divindade” à qual não se pode atribuir nenhuma outra qualidade exceto a da unidade e do ser. Ela “atua”; ainda não é dona de si própria e representa uma coincidência absoluta dos opostos:

Entretanto, sua natureza simples é, quanto à forma, sem forma; quanto ao devir, sem devir; quanto à essência, sem essência, e quanto ao conteúdo, sem conteúdo.

Até onde a lógica humana alcança, a unificação dos opostos equivale a um estado de inconsciência, pois o estado de consciência pressupõe uma diferenciação e uma relação entre o sujeito e o objeto. Somente quando o Pai, “que flui” da divindade, isto é, de Deus, “percebe-se a si mesmo”, é que “se torna consciente” e “se contrapõe a si próprio como pessoa”. É deste modo que o Filho emana do Pai como conceito que este último tem de sua própria essência. Na sua unidade original “Ele nada conhece”, exceto o “Uno supra-real” que Ele é. Do mesmo modo que a divindade é essencialmente inconsciente, assim também o é o homem que vive em Deus. No seu sermão a respeito dos “Felizes os pobres de espírito” (Mateus 5:3), diz o Mestre:

O homem que tem esta pobreza, tem tudo o que era quando não existia, em absoluto, nem para si, nem para a verdade, nem para Deus; e mais: deve tão-somente tomar consciência de si próprio, tal como se nele não existisse nenhum conhecimento de Deus. Quando o homem se encontra na eterna forma de Deus, então nele já não vive outra coisa: o que vive é o que ele próprio era. Por isso dizemos que o homem deve conhecer-se apenas a si mesmo, como se não tivesse outra coisa a fazer, deixando Deus realizar nele o que lhe aprouver. Que o homem seja apenas o que era quando veio de Deus.

É por isso que Eckhart diz que o homem deve “conceber” Deus da seguinte maneira:

Tu deves concebê-lo tal como Ele é: um não-Deus, um não-espírito, uma não-pessoa, uma não-imagem; e mais: como um ser uno, puro, luminoso, isento de toda dualidade, e neste uno devemos mergulhar por toda a eternidade, do nada para o nada. Assim Deus nos ajude! Amém. O pensamento universal e abrangente de Mestre Eckhart conhece, sem o saber, tanto a primitiva experiência indiana quanto a gnóstica, e é inclusive a mais bela flor da árvore do “livre espírito” que caracteriza o início do século XIV. Por certo que os escritos do Mestre permaneceram sepultados no esquecimento durante 600 anos, uma vez que “seu tempo ainda não havia chegado”. Só no século XIX é que se encontrou um público em condições de avaliar de perto a grandiosidade do pensamento de ECKHART.

Semelhantes afirmações a respeito da natureza de Deus constituem transformações das imagens de Deus, em paralelo com as mudanças que se verificam na consciência do homem, sem que se possa precisar sempre qual é a causa um do outro. A imagem divina não é uma invenção qualquer, mas uma experiência que ocorre espontaneamente ao indivíduo, fato que qualquer um pode saber à saciedade, desde que não prefira o obcecamento dos conceitos ideológicos à clareza da verdade. Por isso a imagem de Deus (de início, inconsciente) tem condições de modificar o estado de consciência, do mesmo modo que este pode introduzir suas correções na imagem (consciente) de Deus. É óbvio que isto nada tem a ver com a veritas prima (verdade primeira), o Deus desconhecido, como poderíamos provar de algum modo. Psicologicamente, porém, a idéia da agnosia (não-conhecimento, inconsciência) de Deus é da máxima importância, na medida em que ela assimila a identidade da divindade com a numinosidade do inconsciente; deste fato dão testemunho a filosofia do Atman e do Purusha, no Oriente, e Mestre Eckhart -como vimos- no Ocidente.

E assim Jung termina sua análise sobre a doutrina de Eckhart, que o filósofo Schopenhauer comparou a Buda:

Se formos à raiz das coisas, veremos que Sakiamuni (Buda) e Mestre Eckhart ensinam a mesma coisa, só que o primeiro se atreveu a expressar suas idéias de forma clara e positivamente, ao passo que Eckhart é obrigado vesti-las com a roupa do mito cristão, e assim ter de adaptar suas expressões (Schopenhauer; O Mundo como Vontade e Representação) Eckhart foi acusado de heresia pelo Papa João 22, mas ficou famoso pelas suas defesas, que refutaram todas as acusações. Foi discretamente “reabilitado” pela Igreja no século XX, através do Papa João Paulo II.

CONCLUSÃO

Minha idéia de Deus, vem muito antes de conhecer o trabalho de Espinosa ou Eckhart (confesso que só li sobre eles somente agora). E é similar, baseada no Taoísmo e no Hinduísmo, e desenvolvida no Budismo (que considero a “última jornada da mente”, o mais próximo que se pode chegar de entender esse mecanismo no qual estamos imersos). Minha “idéia-Deus” não vê lados, engloba a Totalidade. Mas acredita sim no poder Divino que reside em nós, e se manifesta pela Vontade (e aí está minha ponte com Nietzsche e aquele pastiche de “O Segredo”).

A minha “crítica” a Einstein é ele acreditar que Deus seja apenas Ordem, não jogando dados com o Universo. A Totalidade contém em si a Ordem e o Caos. Se Deus fosse um mero ordenador, não seria mais do que um computador poderosíssimo. E o que veio antes do computador? O próprio hinduísmo coloca Brahman anterior a Brahma (o Criador) e Vishnu (o Ordenador). “Deus é mais” hehehe.

Na época do meu post de 2002 achava que não, mas hoje penso sim que Deus possa jogar dados com o universo. E o Karma pode estar no meio desse jogo de dados. Como já mencionei aqui, o budismo explica que ao longo das vidas assumimos “personagens”. Em palestra com o Lama Padma Samten ele desenvolveu mais o tema, pra explicar que nem sempre o personagem que você acha que foi em uma vida passada é realmente seu espírito de HOJE encarnado naquele tempo. Isso é mais explicado no post sobre o “Eu” no budismo. Padma Samten disse que o conceito de reencarnação no budismo parece às vezes contraditório porque o estamos analisando de DENTRO do Samsara. Não temos acesso ao quadro todo. E esse reconhecimento de nossa ignorância/envolvimento é a coisa mais bela que o budismo pôde oferecer ao tema, pois amplia o espectro e nos faz ver coisas como o Tsunami do Japão de uma perspectiva menos vingativa (“o povo fez isso no passado e agora está pagando, huahuahua!”) e – ironicamente – mais cristã (“Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes”). Os japoneses foram os nossos irmãos mais velhos, que receberam (pela terceira vez) a responsabilidade de lidar com a irresponsabilidade humana em relação à radioatividade. A tristeza e consternação de hoje se traduzirão em benefícios para uma futura geração, que (espera-se) não dependerá desse tipo de energia.

Vamos caçá-lo, porque ele agüenta. Porque ele não é um herói, é um guardião silencioso, um protetor zeloso (Final de Batman: O cavaleiro das trevas)

Vou compartilhar com vocês um exemplo musical de caos e ordem, que representa um pouco minha visão de Deus. Sempre fui uma pessoa que gosta muito de ordem, de organização, mas de forma saudável, não chega a ser um TOC. Isso se reflete também no meu gosto musical, que privilegia a harmonia. Solos “virtuosi” de rock progressivo, do jazz e da música clássica me deixam irritado com a dessincronia (que eu interpreto em minha mente como uma assimetria). Eis que, nos idos de 1998, procurando conhecer o trabalho de uma famosa cantora pop japonesa, me deparei com a música que segue:

Namie Amuro – Toi e moi

Minha primeira reação ao chegar ao final da música foi deletá-la. Essa música me dava um curto- circuito cerebral por conta de sua percussão sem sentido e mudança rápida de estilos (rap japonês (!) com baladinha, mistura de inglês com japonês, etc.). Mas depois de 1 hora me peguei cantarolando a melodia, e um conflito se estabeleceu em meu cérebro, que rejeitava e ao mesmo tempo queria aquilo. Recuperei a música e passei a ouvi-la uma, duas, três vezes seguidas… sempre estranhando-a, reclamando da agonia da bateria x calma do refrão. Pensei em tentar eliminá-la com filtros, mas era uma tarefa impossível. Depois eu passei a semana inteira ouvindo, e não é que eu prestava cada vez mais atenção (e dava valor) à bateria? De alguma forma eu senti que ela COMPLETA a música de uma maneira que a tornava ÚNICA. Ainda hoje a ouço de vez em quando, pois confesso que me causa uma sensação de estranheza e beleza, uma harmonia no caos que eu ainda não decifrei/decodifiquei racionalmente.

Talvez ela remeta musicalmente ao meu símbolo interior da Totalidade, que todos nós temos e se manifesta das mais variadas formas; mas mais comumente como a Imagem de Deus (Imago Dei).

É algo que também pude verificar na terapia, ao exprimir essa Totalidade através de figuras (símbolos) opostos, perturbadores. É por isso que encerro com o comentário de Jung, que sintetiza o que vimos no texto de hoje:

Se a Psicologia se apodera destes fenômenos, só o pode fazer quando renuncia expressamente a fazer julgamentos metafísicos, e desiste da presunção de sustentar uma convicção que sua experiência científica pretensamente autoriza. Mas não é isto que vem ao caso. O que a Psicologia pode constatar é única e exclusivamente a existência de símbolos plásticos cuja interpretação, a priori, é totalmente incerta. O que se pode dizer com alguma certeza é que os símbolos apresentam um certo caráter de totalidade e por isso, presumivelmente, significam “totalidade”. Via de regra, trata-se de símbolos “de unificação”, isto é, de conjunções de opostos. Eles surgem do entrechoque da consciência com o inconsciente e da confusão causada por este choque, que os alquimistas chamavam de Chaos (caos) ou Nigredo (escuridão). Empiricamente, tal confusão se expressa sob a forma de inquietação e de desnorteamento. Este simbolismo

circular e quaternário aparece então sob a forma de um principio ordenador compensatório, que apresenta a unificação dos opostos conflitantes como já realizada e prepara um estado de inquietação salutar (“redenção”). De início, a única coisa que a Psicologia consegue constatar é que o símbolo da totalidade expressa a totalidade do indivíduo.

Referência

O Deus de Espinosa; Ayrton’s biblical page: Cosmologia, Einstein e Deus

A injustiça social no Brasil é a mesma da França do fim do século XIX

Por Marc Morgan Milá – Economista Irlandês que veio ao Brasil trabalhar no IPEA sobre a distribuição de renda. Entrevista dada a Folha de São Paulo, em 21/08/2017. Seja bem-vindo ao país mais desigual do mundo!

Quem são os ricos no Brasil?

O grupo dos 1% mais ricos tem cerca de 1,4 milhão de pessoas, com renda anual a partir de R$ 287 mil. O 0,1% mais rico reúne 140 mil pessoas com renda mínima de R$ 1,4 milhão. Enquanto isso, a renda média anual de toda a população é de R$ 35 mil. É uma discrepância muito grande. Esse é o ponto importante no caso brasileiro: a concentração do capital é muito alta.

O Brasil é um caso extremo?

O Brasil é um animal diferente. É o país mais desigual do mundo, com exceção do Oriente Médio e, talvez, da África do Sul. Um ponto importante é que todos os governos brasileiros das últimas décadas têm responsabilidade por isso.

Em que sentido?

A história recente indica que houve uma escolha política pela desigualdade e dois fatores ilustram isso: a ausência de uma reforma agrária e um sistema que tributa mais os pobres. Para nós, estrangeiros, impressiona que alíquotas de impostos sobre herança sejam de 2% a 4%. Em outros países chega a 30%. A tributação de fortunas fica em torno de 5%. Enquanto isso, os mais pobres pagam ao menos 30% de sua renda via impostos indiretos sobre luz e alimentação.

O ajuste fiscal pode impactar a desigualdade?

O congelamento das despesas públicas por 20 anos pode ter impacto negativo sobre a desigualdade porque são os mais pobres que dependem mais dessas despesas. Também pesam na conta a legislação sobre terras e a política fiscal, seja na criação de uma tributação mais justa, seja na retirada de renúncias que beneficiam os mais ricos.

Quais renúncias?

A principal é a taxação de lucros e dividendos. O Brasil é um dos únicos que não taxam dividendos distribuídos à pessoa física. Obviamente, isso favorece as pessoas de renda mais elevada.

Melhor combater a pobreza em vez da desigualdade?

Pobreza e desigualdade estão relacionadas. Há políticas que podem atacar ambas, não devemos restringir o foco em apenas uma delas.

Nos últimos 15 anos, a pobreza foi reduzida, é inquestionável. Ao mesmo tempo, a desigualdade melhorou um pouco porque muitas pessoas pobres ascenderam.

Mas os pobres ainda são muito pobres e a diferença de renda entre os dois extremos é muito elevada. Ao se excluir os 20% mais ricos, a renda dos 80% restantes no Brasil é equivalente à dos 20% mais pobres na França. A desigualdade é semelhante à da França do final do século 19.

 

 

Soberania nacional não se vende – 11º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros

O 11º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (Consenge), realizado em Curitiba entre 6 e 9 de setembro, aprovou a Carta de Curitiba, documento que aponta para a urgência de um projeto de país comprometido com a engenharia brasileira, a soberania nacional e a classe trabalhadora.

No marco dos 100 anos da primeira Greve Geral no Brasil e da Revolução Russa, nós, engenheiras e engenheiros reunidos no 11º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros (Consenge), manifestamos a urgência de um projeto de país comprometido com a engenharia brasileira, a soberania nacional e a classe trabalhadora.

Fizemos o maior Congresso da história, com mais de 300 participantes, além da maior delegação de mulheres e de estudantes, frutos da construção do Coletivo de Mulheres da Fisenge e do Coletivo Nacional de Estudantes, em diversos estados. 

Com a consolidação do golpe ao mandato da presidenta Dilma Rousseff, a engenharia brasileira sofre um inaceitável processo de criminalização, com empresas nacionais fechadas, obras paralisadas e milhares de profissionais demitidos.

Estas são consequências intoleráveis, frutos da crise política capitaneada pela Operação Lava Jato. Repudiamos a corrupção e exigimos a responsabilização de todas as pessoas envolvidas em desvios de conduta, sem a penalização das empresas nacionais.

A engenharia é o motor da economia de todo país, uma vez que amplia a capacidade produtiva e de investimentos. A desnacionalização da economia, em curso no Brasil, aprofunda o desmonte da engenharia brasileira, a subordinação ao capital estrangeiro, as desigualdades sociais e ameaça a soberania nacional.

Repudiamos, ainda, a entrega do território brasileiro e também a privatização da Eletrobrás, dos Correios, da Casa da Moeda. Reivindicamos a defesa da Petrobras pública e estatal como elemento estratégico para o desenvolvimento social. É imperativo o investimento em ciência e tecnologia, impedindo a chamada “fuga de cérebros”.

Um país sem ciência e sem tecnologia é um país sem soberania nacional. A engenharia brasileira possui acúmulo tecnológico para pensar, formular, construir, projetar e inovar soluções de melhoria de condições de vida para a população.

As profundas transformações no mundo do trabalho, a chamada Revolução 4.0, impõem desafios para enfrentarmos o desemprego estrutural previsto internacionalmente. Para além do campo de benesses, é necessário disputar o controle e a distribuição das tecnologias.

Manifestamos como urgente a revogação da reforma trabalhista e da emenda constitucional 95, que determina um teto para os gastos públicos. Defendemos a redução da jornada de trabalho para 35 horas sem redução de salário e a manutenção da previdência social. Apoiamos uma reforma política popular, com financiamento público de campanha e fortalecimento dos partidos políticos.

A crise é mundial e não há solução fácil. Temos, todos e todas, grandes responsabilidades. E, com grandes responsabilidades, surgem tarefas. Temos a tarefa histórica de resistir e lutar em defesa da engenharia, da democracia e da soberania nacional.

Curitiba, 09 de setembro de 2017

11º Congresso Nacional de Sindicatos de Engenheiros