Cruvinel: as pegadas americanas no Golpe

Por Tereza Cruvinel

O golpe em curso no Brasil é sofisticada operação político-financeira-jurídico-midiática, tipo guerra híbrida. E será muito difícil deslindá-la, diz o jornalista Pepe Escobar. E mais difícil fica na medida em que surgem contradições entre seus próprios artífices. A enxurrada de conversas que Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro e um dos operadores do Petrolão, teve e gravou com cardeais do PMDB, induz à ilusória percepção de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff foi apenas um golpe tupiniquim, armado pela elite política carcomida para deter a Lava Jato e lograr a impunidade. O procedimento “legal” que garantiu a troca de Dilma por Temer, para que ele faça o que está fazendo, foi peça de operação maior e mais poderosa desencadeada ainda em 2013 para atender a interesses internos e internacionais. E nela ficaram pegadas da ação norte-americana.

Interesses internos: remover Dilma, criminalizar o PT, inviabilizar Lula como candidato a 2018 e implantar uma política econômica ultra-liberal, encerrando o ciclo inclusivo e distributivista. Interesses externos: alterar a regra do pré-sal e inverter a política externa multilateralista que resultou nos BRICS, na integração sul-americana e em outros alinhamentos Sul-Sul.

As gravações de Machado desmoralizam o processo e seus agentes e complicam a evolução do governo Temer mas nem por isso o inteiro teor da trama pode ser reduzido à confissão de Romero Jucá, de que uma reunião de caciques do PMDB, PSDB, DEM e partidos conservadores menores, em reuniões noturnas, decidiram que era hora de afastar Dilma para se salvarem. E daí vieram a votação de 17 de abril na Câmara, a farsa da comissão especial e a votação do dia 11 de maio no Senado.

Um longo caminho, entretanto, foi percorrido até que estes atos “legais” fossem consumados. Para ele contribuíram a Lava Jato e suas estrelas, a Fiesp com seu suporte a grupos pró-impeachment e o aliciamento de deputados, o mercado com seus jogos especulativos na bolsa e no câmbio para acirrar a crise, Eduardo Cunha e seus asseclas com as pautas bombas na Câmara. E também as obscuras mas perceptíveis ações da NSA, Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, e da CIA, na pavimentação do caminho e na fermentação do clima propício ao desfecho. Os grampos contra Dilma, autoridades do governo e da Petrobrás, os protestos contra o governo, o desmanche econômico e a dissolução da base parlamentar, tudo se entrecruzou entre 2013 e 2016.

Se os que aparecem agora nas conversas gravadas buscaram poder, impunidade e retrocesso ao país de poucos e para poucos, os agentes externos miraram o projeto de soberania nacional e o controle de recursos estratégicos, em particular o petróleo do Pré-Sal. Não por acaso, a aprovação do projeto Serra, que suprime a participação mínima obrigatória da Petrobrás, em 30%, na exploração de todos os campos licitados, entrou na agenda de prioridades legislativas do novo governo.

Muito já se falou da coincidente chegada ao Brasil, em agosto de 2013, de Liliana Ayalde como embaixadora dos Estados Unidos, depois de ter servido no Paraguai entre 2008 e 2011, saindo pouco antes do golpe parlamentar contra o ex-presidente Fernando Lugo. Num telegrama ao Departamento de Estado, em 2009, vazado por Wikileaks, ela disse:. “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”. E num outro, mais tarde : “nossa influência aqui é muito maior que as nossas pegadas”.

O que nunca se falou foi que a própria presidente Dilma, tomando conhecimento dos encontros que Ayalde vinha tendo com expoentes da oposição no Congresso, mandou um emissário avisá-la de que via com preocupação tais movimentos. Eles cessaram, pelo menos ostensivamente. Ayalde havia chegado pouco antes da Lava Jato esquentar e no curso da crise diplomática entre o Brasil e os Estados Unidos, detonada pela denúncia do Wikleaks de que a NSA havia grampeado Dilma, Petrobrás e outros tantos. Segundo Edward , o ex-agente da NSA que denunciou a bibilhotagem, “em 2013 o Brasil foi o país mais espionado do mundo”. Em Brasília funcionou uma das 16 bases americanas de coleta de informações, uma das maiores.

A regra de exploração do pré-sal e a participação do Brasil nos BRICS (grupo formado por Brasil, Rússia, India. Chia e Africa do Sul), especialmente depois da criação, pelo bloco, de um banco de desenvolvimento com capital inicial de US 100 bilhões, encabeçaram as contrariedades americanas com o governo Dilma.

Recuemos um pouco. Em dezembro de 2012, as jornalistas Cátia Seabra e Juliana Rocha publicaram na Folha de São Paulo telegrama diplomático vazado por Wikileaks, relatando a promessa do candidato José Serra a uma executiva da Chevron, de que uma vez eleito mudaria o modelo de partilha da exploração do pré-sal fixado pelo governo Lula: a Petrobrás como exploradora única, a participação obrigatória de 30% em cada campo de extração e o conteúdo nacional dos equipamentos. Estas regras, as petroleiras americanas nunca aceitaram. Elas querem um campo livre como o Iraque pós-Saddam. A Folha teve acesso a seis telegramas relatando o inconformismo delas com o modelo e até reclamando da “falta de senso de urgência do PSDB”. Serra perdeu para Dilma em 2010 mas como senador eleito em 2014, apresentou o projeto agora encampado pelo governo Temer.

No primeiro mandato, Dilma surfava em altos índices de popularidade até que, de repente, a pretexto de um aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus de São Paulo, estouraram as manifestações de junho de 2013. Iniciadas por um grupo com atuação legítima, o Movimento Passe Livre, elas ganham adesão espontânea da classe média (que o governo não compreendeu bem como anseio de participação) e passam a ser dominadas por grupos de direita que, pela primeira vez, davam as caras nas ruas. Alguns, usando máscaras. Outros, praticando o vandalismo. Muitos inocentes úteis entraram no jogo. Mais tarde é que se soube que pelo menos um dos grupos, o MBL, era financiado por uma organização de direita norte-americana da família Koch. E só recentemente um áudio revelou que o grupo (e certamente outros) receberam recursos também do PMDB, PSDB, DEM e SD.

Aparentemente a ferida em Dilma foi pequena. Mas o pequeno filete de sangue atiçou os tubarões. Começava a corrida para devorá-la. A popularidade despencou, a situação econômica desandou, veio a campanha de 2014 e tudo o que se seguiu.

Mas nesta altura, a espionagem da NSA já havia acontecido, tendo talvez como motivação inicial a guerra do pré-sal. Escutando e gravando, encontraram outra coisa, o esquema de corrupção. E aqui entram os sinais de que as informações recolhidas foram decisivas para a decolagem da Lava Jato. Foi logo depois do Junho de 2013 que as investigações avançaram. A partir da prisão do doleiro Alberto Yousseff, numa operação que não tinha conexão com a Petrobrás, o juiz federal Sergio Moro consegue levar para sua alçada em Curitiba as investigações sobre corrupção na empresa que tem sede no Rio, devendo ter ali o juiz natural do caso. Moro havia participado, em 2009, segundo informe diplomático também vazado por Wikileaks, de seminário de cooperação promovido pelo Departamento de Estado, o Projeto Pontes, destinado a treinar juízes, procuradores e policiais federais no combate à lavagem de dinheiro e contraterrorismo. Participaram também agentes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai. Teria também muitas conexões com procuradores norte-americanos.

Com a prisão de Yousseff, a Lava Jato deslancha como um foguete. Os primeiros presos já se defrontam com uma força tarefa que detinha um mundo de informações sobre o esquema na Petrobrás. Executivos e sócios de empreiteiras rendiam-se às ofertas de delação premiada diante da evidência de que negar era inútil, só agravaria suas penas. O estilo espetaculoso das operações e uma bem sucedida tática de comunicação dos procuradores e delegados federais semeou a indignação popular. Vazamentos seletivos adubaram o ódio ao PT como “cérebro” do esquema.

As coisas foram caminhando juntas, na Lava Jato, na economia e na política. A partir do início do segundo mandato de Dilma, ganharam sincronia fina. Na Câmara, Eduardo Cunha massacrava o governo e a cada derrota o mercado reagia negativamente. A Lava Jato, com a ajuda da mídia, envenenava corações e mentes contra o governo. Os movimentos de direita e pró-impeachment ganharam recursos e músculos para organizar as manifestações que culminaram na de 15 de março. A Fiesp entrou de cabeça na conspiração e a Lava Jato perdeu todo o pudor em exibir sua face política com a perseguição a Lula, a coerção para depor no aeroporto de Congonhas e finalmente, quando ele vira ministro, a detonação da última chance que Dilma teria de rearticular a coalizão, com o vazamento da conversa entre os dois.

No percurso, Dilma e o PT cometeram muitos erros. Erros que não teriam sido fatais para outro governo, não para um que já estava jurado de morte. Mas este não é o assunto agora, nesta revisitação em busca da anatomia do golpe.

Em março, a ajuda externa já fizera sua parte mas as pegadas ficaram pelo caminho. O governo já não conseguia respirar. Mas, pela lei das contradições, a Lava Jato continuou assustando a classe política, sabedora de que poderia “não sobrar ninguém”. É quando os caciques se reúnem, como contou Jucá, e decidiram que era hora de tirar Dilma “para estancar a sangria”.

Desvendar a engrenagem que joga com o destino do Brasil desde 2013 é uma tentação frustrante. Faltam sempre algumas peças no xadrez. Mas é certo que, ainda que incompleta, a narrativa do golpe não é produto de mentes paranoicas. No futuro, os historiadores vão contar a história inteira de 2016, assim como já contaram tudo ou quase tudo sobre 1964.”

Sérgio Moro – um Juiz Medíocre

Segue um resumo da mediocridade de um Juiz incompetente, na qual se baseia para condenar alguém a 12 anos de prisão:

841. Não pode aqui evitar-se o contexto.
842. O caso trata de macrocorrupção, envolvendo conta corrente geral de propinas entre o Grupo Odebrecht e agentes do Partido dos Trabalhadores, com cerca de duzentos milhões de reais acertados, cento e trinta e três milhões de reais repassados e um saldo de propina do remanescente.
843. Antônio Palocci Filho era o principal administrador da conta corrente geral de propinas.
844. Embora os valores tenham sido utilizados com variados propósitos, parte substancial, inclusive a que é objeto específico da presente ação penal, foi utilizada para fraudar sucessivas eleições no Brasil, contaminando-as com recursos provenientes de corrupção.
845. Segundo a planilha, isso teria ocorrido nas eleições municipais de 2008 e na eleição presidencial de 2010.
846. Dinheiro de propina administrada pelo condenado também teria sido utilizado, segundo a planilha, para fraudar eleições no estrangeiro, em El Salvador em 2008 e no Peru em 2011.
847. Outros valores teriam sido repassados até no mínimo 2014 com outros propósitos.
848. Também destaque-se depoimento de João Cerqueira de Santana Filho, de que repasses similares, administrados pelo paciente Antônio Palocci Filho, já teriam ocorrido nas eleições presidenciais de 2006, embora não abrangidos pela planilha referida.

O despacho inteiro é cheio de abobrinhas como essa, fundamentadas em fontes como a “planilha” (ou seja, numa planilha da Odebrecht que, evidentemente, não é prova de nada, até porque seu conteúdo se presta a qualquer tipo de interpretação) ou como o “depoimento” de João Santana, o qual sabemos muito bem como foi obtido: com tortura.
A acusação de Pallocci era o “principal coordenador da conta corrente geral de propinas” é simplesmente surreal. Não se baseia em prova nenhuma.
Pallocci talvez fosse um intermediário entre as doações, de caixa 1 ou caixa 2, da Odebrecht, e o PT. Tudo o resto é especulação delirante de Sergio Moro.
O MPF e Moro jogam com teorias de conspiração sem base em nenhuma prova concreta e a mídia compra todas as histórias. É um jogo de cartas marcadas, que teve início na Ação Penal 470, ao qual a sociedade brasileira assistiu impávida, talvez ligeiramente perplexa, mas sem reagir. E aí criamos esse monstro.
A condenação se parece com uma reportagem da revista Época: “o dinheiro da propina administrada pelo condenado também teria sido utilizado, segundo a planilha, para fraudar eleições no estrangeiro, em El Salvador em 2008 e no Peru em 2011”.
Não dá nem para acreditar: Pallocci é condenado por fraudar eleições em El Salvador… É uma coisa surreal. Pallocci não tem interesse nenhum em El Salvador, não é de El Salvador. Não fez nenhuma campanha em El Salvador. O dinheiro da campanha não era dele.
Agora está bem claro o que fez a Lava Jato. Pegou uma planilha da Odebrecht (cuja veracidade contábil nunca foi comprovada), que tinha informações da empresa sobre doações, legais ou clandestinas, a partidos políticos, misturou tudo, temperou com muitos adjetivos e teorias mirabolantes e conspiratórias, adicionou “depoimentos” sem provas de João Santana e Monica Moura, e pronto: condenou e foi para a mídia gritar gol.
Ainda na mídia, lemos que Sergio Moro reduziu brutalmente as sentenças de João Santana e Monica Moura. A Lava Jato usa até mesmo as sentenças já decretadas como forma de ameaça e tortura. Pode-se delatar depois de condenado, como fará Pallocci, como esforço para mudar a pena. O que é, obviamente, uma distorção total da delação premiada. E não precisa contar a verdade nem apresentar provas.
Se considerarmos que tudo isso acontece em meio a vazamentos desenfreados, que servem tanto para fazer o jogo político como para acrescentar mais uma chantagem ao réu, fica bem claro o tipo de acordo sujo está fazendo a justiça brasileira.
Ainda no despacho, Moro afirmou que as declarações do ex-ministro Antonio Palocci de que ele “teria muito a contribuir” com as investigações “soaram mais como uma ameaça”, do que “propriamente como uma declaração sincera de que pretendia naquele momento colaborar com a Justiça”.
A interpretação de Moro é simples: como Pallocci deixou no ar a possibilidade de delatar a mídia e instituições financeiras, então isso é “ameaça”. Se o ex-ministro deixasse bem claro que estaria a fim apenas de delatar o PT, Lula, Dilma, etc, então isso demonstraria a sua boa vontade.
Não adianta o réu fazer diferente e fugir do script. É preciso corroborar as teorias de conspiração de Dallagnol e Moro. Caso contrário, qualquer colaboração será vista como “ameaça”. Foi assim com Cunha, foi assim com Pallocci.
A Lava Jato se tornou uma cloaca. Um antro sórdido de jogadas sujas, coordenado por Sergio Moro.

O Pensamento Selvagem de Lèvi-Strauss

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O pensador francês que levou a antropologia além do estudo das sociedades na tentativa de desvendar as leis da própria condição humana.

Pense na cena: o rei da França e um cacique tupinambá, frente a frente, perante damas e cavalheiros da corte, em Paris. A cena inusitada se deu no século 16, quando os franceses haviam estabelecido no Brasil a sua efêmera França Antártica e o rei Carlos IX, desejoso de conhecer os hábitos estranhos de seus novos súditos, levou um chefe e dois guerreiros indígenas para a Europa.
Foi uma sorte que entre cortesãos e servidores de Sua Alteza estivesse presente o filósofo Michel de Montaigne, que descreveu os acontecimentos no livro Ensaios. Graças a ele ficamos sabendo que os chamados “selvagens” ficaram tão espantados quanto os franceses. “Eles notaram”, escreveu, “que há entre nós homens bem fornidos que gozam de todas as comodidades da vida, enquanto às suas portas mendigam os homens da nossa outra metade, emagrecidos pela fome e pela pobreza.”

As memórias de Montaigne diferem do relato que o conquistador Nicolas Durand de Villegaignon enviava da América: “Essa gente é muito arisca e selvagem, não tem nenhuma cortesia e é muito diferente de nós; não têm religião, não conhecem a honestidade e não sabem distinguir o certo do errado; são animais com figura de homens”.
As duas narrativas revelam faces do comportamento que os europeus teriam frente aos povos do Novo Mundo: o colonizador, de olho nas riquezas naturais, sente-se filho de uma civilização superior, com direito a explorar os “selvagens”. O filósofo sabe não ser tão fácil distinguir o certo do errado e aproveita o contato para conhecer melhor não só a espécie humana, mas a própria civilização.
Claude Lévi-Strauss, que criou, já no século 20, as teses da moderna antropologia, está no segundo caso. Um pajé tupi poderia dizer que o espírito de Montaigne continuou a inspirá-lo. O principal herdeiro dessa linhagem tornou-se o cacique do chamado estruturalismo. Mas trata-se de um descendente rebelde. Em Montaigne, o contato com os tupinambás inspirou o sentimento de que “por certo, o homem é um tema maravilhosamente vão, diverso e ondulante; não é apropriado nele fundar um juízo constante e uniforme”. Lévi-Strauss aceitou a primeira parte, mas desafiou a segunda. Para ele, a antropologia devia buscar, por trás da diversidade da espécie humana, o que ela tem de universal.

“Esta é a evolução típica a que assistimos, desde o Egito até a China, no momento em que a escrita faz sua estreia: ela parece favorecer mais a exploração dos homens do que o seu estabelecimento.“ Cadiueu - Mato GrossoEsta é a evolução típica a que assistimos, desde o Egito até a China, no momento em que a escrita faz sua estreia: ela parece favorecer mais a exploração dos homens do que o seu estabelecimento.“ Cadiueu – Mato Grosso (Marcelo Zocchio)

Essa busca, porém, não poderia se basear em preconceitos ocidentais. Era preciso romper com as teorias evolucionistas do século 19, segundo as quais as sociedades ditas “primitivas” representam estágios ultrapassados pelo Ocidente no caminho do progresso. A saída era comparar as mais variadas sociedades em busca das chamadas “invariantes”, aquilo que todas têm em comum. Por exemplo: o tabu do incesto, a capacidade de comunicação, a necessidade de preparar os alimentos e a interação com a natureza.
Estudando como esses aspectos se manifestam em cada sociedade, Lévi-Strauss pretendeu decifrar as relações entre o ser humano, a natureza e a cultura já em sua primeira obra clássica: As Estruturas Elementares do Parentesco, de 1949. A inspiração para as “estruturas” veio da linguística. Para o antropólogo, as sociedades se organizam como se fossem frases ou modos de falar, que podem ser diferentes entre si, mas obedecem a um mesmo código ou sistema universal.
Essa concepção foi revolucionária, pois rompia para sempre a tradicional dicotomia entre natureza e cultura. O estruturalismo refutou a oposição entre esses termos ao mostrar como a cultura é uma produção – e não uma negação – da natureza.

“A música e o mito são linguagens que transcendem, cada uma à sua maneira, o nível da linguagem articulada.“ Bororo - Mato Grosso“A música e o mito são linguagens que transcendem, cada uma à sua maneira, o nível da linguagem articulada.“ Bororo – Mato Grosso (Marcelo Zocchio)

Se os brasileiros do século 16 foram até Montaigne, Lévi-Strauss veio até os do século 20. Na década de 30, a recém-criada Universidade de São Paulo (USP) convidou o jovem Lévi-Strauss para a cadeira de sociologia. A aventura transatlântica mudaria sua vida e a história das ciências sociais.
Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, na Bélgica, em 1908, filho de judeus de origem francesa. Seu pai era um pintor e o ambiente em sua casa era marcado pelo culto às artes, à poesia e à música. A Primeira Guerra Mundial marcou sua infância e quando ele chegou à Universidade de Paris, em 1927, pouco restava da confiança européia nos ideais de progresso da civilização ocidental.
Formado em Direito e Filosofia, Lévi-Strauss lecionava num liceu quando lhe ofereceram o cargo na USP. Nos finais de semana, disseram-lhe, poderia visitar aldeias indígenas nos arredores da cidade. Imagine sua decepção quando chegou a São Paulo, que em 1934 já era a mais urbanizada das cidades brasileiras. Ele não se deu por vencido e aproveitou suas férias na Universidade para viajar pelo interior do país. Conheceu os cadiueus, junto à fronteira com o Paraguai e visitou aldeias bororos, no Mato Grosso do Sul. Foram cinco meses de contato direto com grupos indígenas. A temporada no Brasil durou até 1937 e está narrada no livro Tristes Trópicos, de 1955.
Em 1938, com apoio do governo francês, Lévi-Strauss retornou ao Brasil. Dessa vez, a base foi Cuiabá e ele visitou os nambiquaras do Mato Grosso e os tupi-cavaíbas do Alto-Machado, no Amazonas. Mas os tambores do Ocidente começaram a soar e Segunda Guerra fez com que ele regressasse à França para o serviço militar. Quando os alemães invadiram o país ele partiu para Nova York, onde estava a nata da intelectualidade européia, com quem passou a conviver e debater suas idéias. Foi a conclusão de sua formação teórica. Na juventude, os interesses intelectuais de Lévi-Strauss foram a geologia, a psicanálise e o marxismo. De Sigmund Freud, ele herdou as teses sobre o inconsciente e a certeza de que a combinação de elementos mais insólita (como os sonhos) é sempre passível de uma interpretação. O legado de Karl Marx não foi apenas a crítica da civilização ocidental, mas a idéia de que é necessário organizar os dados da realidade numa teoria original.
Anos depois, ele passaria a criticar vários aspectos da psicanálise e do marxismo e abandonaria os estudos de geologia em troca de uma paixão pela botânica e pela zoologia. Mas todos esses interesses marcaram o estruturalismo. “Os três demonstram que compreender consiste em reduzir um tipo de realidade a outro; que a realidade verdadeira nunca é a mais patente; e que a natureza do verdadeiro já transparece no zelo que este emprega em se ocultar”, escreveu.

“Enquanto os brancos proclamavam que os índios eram animais, os segundos contentavam-se em suspeitar que os primeiros fossem deuses. Em nível idêntico de ignorância, o último procedimento era, com certeza, mais digno de homens.“ Tupi-cavaíba - Amazônia“Enquanto os brancos proclamavam que os índios eram animais, os segundos contentavam-se em suspeitar que os primeiros fossem deuses. Em nível idêntico de ignorância, o último procedimento era, com certeza, mais digno de homens.“ Tupi-cavaíba – Amazônia (Marcelo Zocchio)

Em Nova York, enquanto a Europa mergulhava na barbárie, o clima intelectual era de efervescência. Lévi-Strauss passou a frequentar o grupo dos surrealistas – como o poeta André Breton e o artista Max Ernst – e familiarizou-se com as pesquisas de Franz Boas, a quem Lévi-Strauss sempre reconheceu como o verdadeiro precursor do estruturalismo. Primeiro, porque foi o alemão radicado nos Estados Unidos quem afastou de vez da antropologia o etnocentrismo – a presunção de superioridade ocidental –, instituindo a perspectiva relativista, segundo a qual é necessário entender as outras culturas sem impôr-lhes os valores da cultura ocidental. Mas principalmente porque ele era linguista e concebia a gramática como uma “estrutura subjacente” da linguagem, inconsciente para os falantes.
Mas o encontro mais importante desse período foi com o linguista russo Roman Jakobson, seu amigo e interlocutor por toda a vida. Ele e Nicolai Troubetskoy tinham desenvolvido as idéias do suíço Ferdinand de Saussure sobre a linguagem. Eles mostraram que um fonema – a menor unidade linguística – só é significativo quando relacionado a outros fonemas, formando sílabas e palavras. De forma análoga, Lévi-Strauss acreditava que os traços culturais de uma sociedade (mitos, rituais, práticas alimentares etc.) só podem ser compreendidos se analisados em conjunto. Sob o impacto dessa perspectiva estrutural, Lévi-Strauss formulou sua própria maneira de compreender o homem. Para ele, o que distingue o ser humano dos outros animais é o uso de símbolos para se comunicar. Essa sintonia com a linguística serviu-lhe também para o perfil do antropólogo estruturalista.
Ele não se preocupa com as particularidades de cada grupo humano: seu objetivo não é conhecer uma sociedade específica, mas o que há de universal em todas elas. Há em todas as sociedades, por exemplo, sistemas de parentesco e restrições matrimoniais. Trata-se de um fenômeno humano tão universal quanto a linguagem.
Lévi-Strauss estudou tais regras como se fossem signos articulados num processo de comunicação das alianças entre grupos sociais. O resultado foi uma nova compreensão do incesto, que refutou as explicações biológicas ou morais. O mais importante não é a proibição de manter relações sexuais com certas mulheres (como a mãe ou a irmã) e sim a permissão para tê-las com outras. A interdição de umas permite a circulação de outras e assim constitui alianças fundadoras da vida social. Por isso, o sistema de parentesco é visto como um artifício “por meio do qual se cumpre a transição entre a natureza e a cultura”.
O estudo sobre o parentesco – um dos temas tradicionais da antropologia – foi uma espécie de prova de fogo do estruturalismo e Lévi-Strauss passaria a testar seu método numa área menos explorada: a mitologia. Num artigo de 1955, “O Estudo Estrutural do Mito”, ele afirmou que os mitos não podem ser estudados isoladamente: “Um mito é composto de todas as suas variantes”. Era preciso pesquisar como as narrativas tradicionais passam de uma sociedade para outra e vão se transformando.
Foi isso o que Lévi-Strauss fez na sua obra máxima: a série em quatro volumes das Mitológicas, de 1960. Em mais de 2 mil páginas, ele analisa um total de 813 mitos – e suas centenas de variantes – originários de povos do continente americano, desde os bororos, os jês e os tupi-cavaíbas do Brasil até os hopi, os pueblo, os mohawk e os kwakiutl da América do Norte. O objetivo é desvendar a lógica interna dos mitos e mostrar como eles representam a passagem da natureza para a cultura.
No primeiro volume, chamado O Cru e o Cozido, o antropólogo compara a análise conjunta dos mitos americanos à audição de uma sinfonia. Os membros da orquestra, porém, estão separados no tempo e no espaço, e cada um executa seu fragmento sem saber que não tem a partitura completa. Só é capaz de ouvir a música inteira quem estiver à distância. O concerto, segundo Lévi-Strauss, iniciou-se há milênios e hoje uns poucos músicos remanescentes continuam a tocar.
O antropólogo estudou a recorrência de temas e narrativas e reduziu-as a oposições simples como cru/cozido, molhado/seco, macho/fêmea. Influenciado pela lógica binária da informática, que então se desenvolvia rapidamente, o antropólogo sustentou que esses antagonismos que organizam a cultura têm uma origem natural: correspondem à estrutura do próprio cérebro humano.

“Para nós, europeus e apegados à terra, a aventura ao coração do Novo Mundo significa antes de mais nada que ele não foi o nosso, e que carregamos o crime de sua destruição.“ Nammbiquara - Amazônia“Para nós, europeus e apegados à terra, a aventura ao coração do Novo Mundo significa antes de mais nada que ele não foi o nosso, e que carregamos o crime de sua destruição.“ Nammbiquara – Amazônia (Marcelo Zocchio)

Os mitos, portanto, são maneiras de pensar. Mas toda a exploração da mitologia ameríndia teria sido impossível sem que o autor tivesse, antes, desenvolvido sua própria teoria sobre o modo de pensar dos povos considerados “primitivos”. Tradicionalmente, os antropólogos distinguiam a “mentalidade lógica” da moderna civilização ocidental da “mentalidade pré-lógica” das sociedades primitivas. Lévi-Strauss abandonou essa divisão.
Em O Pensamento Selvagem, de 1962, ele demonstrou que a maneira de pensar dos primitivos também tem sua lógica própria e que ela não é estranha ao pensamento domesticado ocidental. A distinção maior é entre a lógica construída a partir dos dados sensoriais da experiência – uma ciência do concreto – e a lógica que privilegia categorias abstratas, como sinais matemáticos e classificações biológicas. Do lado “selvagem”, há uma atenção maior ao específico. Do lado “domesticado”, buscam-se as totalidades, os grandes esquemas explicativos.
O segundo modo prevaleceu na civilização ocidental, mas mesmo nela só é empregado por uma minoria de especialistas, cada um em seu campo de atuação. O engenheiro, por exemplo, só pensa como tal no domínio da engenharia, em termos de culinária ou futebol seu modo de pensar pode ser considerado “selvagem”. O pensamento “selvagem”, portanto, não é restrito aos povos primitivos, ainda que entre eles seja dominante. Assim, o que era antes visto como “atraso” ou “vestígio” passou a ser entendido como um dos modos possíveis de o homem organizar sua relação com o mundo. É como se o pensamento primitivo trabalhasse diretamente com as coisas que o ser humano tem ao alcance dos cinco sentidos do seu corpo. Já o pensamento científico trabalha com teorias e conceitos, que servem de mediadores entre o ser humano e o mundo.
O Pensamento Selvagem marcou o apogeu do prestígio do estruturalismo e estabeleceu definitivamente um espaço para a antropologia entre as ciências sociais mais importantes. Mas não sem polêmica. O lugar ao sol significava desafiar o predomínio de outra disciplina: a história. O livro contesta duramente a Crítica da Razão Dialética, do filósofo Jean-Paul Sartre, na época um dos ídolos da esquerda mundial. Lévi-Strauss contesta o privilégio concedido por Sartre à história, em detrimento das outras ciências sociais. E nega sobretudo a idéia de que o desenvolvimento da consciência histórica seria um critério válido para distinguir os “primitivos” dos “civilizados”. A própria noção de “fato histórico”, para o antropólogo, é falsa: a história só é percebida “em situação”, enquanto processo vivido, pois a Revolução Francesa, por exemplo, não teve o mesmo significado para um camponês do Loire e para um cortesão de Versalhes.
O fato histórico, portanto, é uma abstração criada pelo historiador e nunca independente do seu ponto de vista. Por isso, a história não pode pretender alcançar uma verdade objetiva – como queriam os positivistas e os marxistas. No final das contas, ela também pertence ao domínio da mitologia.
Nos anos 1960, o estruturalismo se tornou – para constrangimento de seu criador – um modismo global, com adeptos em outras áreas do conhecimento, como o psicanalista Jacques Lacan, o sociólogo Louis Althusser e o crítico literário Roland Barthes. Mas o clima de contestação generalizada que marcou aqueles anos, culminando com o movimento estudantil de maio de 1968, na França, atingiu também a onda estruturalista. Jovens pensadores como o filósofo e historiador Michel Foucault abandonaram seus vínculos com essa linha de pensamento, questionando o determinismo das “estruturas” e também a possibilidade de estudá-las com o distanciamento e a objetividade exigida por seus mestres.
Na antropologia, a corrente pós-estruturalista abandona o próprio conceito de estrutura, por se parecer com uma espécie de “teologia” das sociedades: uma instância imaterial e superior que determina os destinos humanos. Também criticam a propensão do estruturalismo para as generalizações, em detrimento do conhecimento das especificidades.
Hoje, poucos antropólogos mantêm-se fiéis aos principais postulados de Lévi-Strauss. Embora, no Brasil, sua obra ainda seja obrigatória nas cadeiras das universidades, ou como inspiração ou como ponto de partida. Porém uma das coisas que mais incomodam aos críticos de Lévi-Strauss é o fato de ele ser também um escritor admirável. Mas, se hoje o trabalho de Lévi-Strauss é mais valorizado como obra literária, o salto não deixa de ser irônico. O estruturalismo passou do campo do pensamento “domesticado” e científico direto para o seu oposto. Porque, como explicou o autor em sua obra de 1962, as artes formam na civilização ocidental uma espécie de reserva ecológica do pensamento selvagem. “Este livro sobre mitos é ele próprio um tipo de mito”, escreveu.

Referências

O Pensamento Selvagem, Papirus, São Paulo, 1989.

Oleira Ciumenta, Edições 70, Lisboa, 1987.

O Cru e o Cozido, Brasiliense, São Paulo, 1991.

O Olhar Distanciado, Edições 70, Lisboa, 1986.

De Perto e de Longe, Entrevista a Didier Eribon sobre Lévi-Strauss, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1990.

As Idéias de Lévi-Strauss, Edmund R. Leach, Cultrix, São Paulo, 1977.

Claude Lévi-Strauss O Útimo Festim de Esopo, Octavio Paz, Perspectiva, São Paulo, 1977.

Estruturalismo e Crítica Literária, Luiz Costa Lima, em Teoria da Literatura em Suas Fontes, vol. 2, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2002.

http://super.abril.com.br/historia/o-pensamento-selvagem-de-levi-strauss/

A TEORIA DO DESGOVERNO GERAL

Ainda no ano de 2015 publiquei um texto defendendo a tese de que os países periféricos do Mundo atravessavam por desestabilizações políticas criadas por forças externas.  Essas desestabilizações teriam o apoio de setores conservadores desses países. Mas o objetivo final dessas forças externas não seria colocar esses setores no poder (como já ocorreu no passado). Teriam seus próprios interesses autônomos e isolados. Chamei essa tese de “Teoria do Desgoverno Geral”.

Defendi naquela ocasião a ideia de que um Golpe de Estado ocorreria no Brasil, correspondendo a determinados interesses estrangeiros, em especial os dos EUA. Para mim estava claro que por um momento esses interesses iriam convergir com alguns interesses políticos e econômicos locais (da direita brasileira). Porém, esse golpe externo estaria destinado a se desprender desses interesses locais em algum momento e começaria a operar de maneira autônoma e dissonante. Com isso, teríamos depois de um golpe contra Dilma, uma eventual cassação de Temer e uma perseguição à própria direita. Esse último fato em princípio agradaria a esquerda por razões óbvias… Porém, na prática esses fatos estariam exatamente de acordo com a “política de descarrilhamento” ou, o que chamei de “Teoria do Desgoverno Geral”.

Seguindo essa teoria, o que interessaria ao imperialismo é justamente o desgoverno contínuo. Para que? Simples: para comprar o Brasil a preço baixo. Assim, esse desgoverno contínuo atuaria como uma espécie de terrorismo econômico, fazendo com que as grandes empresas dos países imperialistas pudessem comprar nossas empresas, nossas riquezas naturais e setores inteiros da nossa economia a custo baixo, como uma grande massa falida…

Com a queda de Dilma e a deposição de Temer, teríamos o dólar indo às alturas e as empresas nacionais perdendo valor real e nominal. Um verdadeiro caos econômico… Com isso as grandes corporações norte-americanas conseguiriam, por exemplo, comprar toda a nação a preço de banana. Certa ou errada, os fatos estão ocorrendo exatamente conforme a teoria que desenvolvi há anos atrás.E agora o que interessa é que entramos em um momento decisivo na História desse golpe.

A única forma de garantir a normalidade do Brasil e a nossa soberania política é a mobilização imediata de milhões de brasileiro nas ruas até a deposição de Temer. Depois disso, a luta deve ser pelas DIRETAS JÁ. Esperar que algum tribunal – sob o comando de nossos nobres juízes escravocratas – ou a Rede Globo represente os interesses populares é uma fantasia pueril. Aliás, é bem provável que nesse momento a Rede Globo inclusive incentive a deposição de Temer. Com isso, a ideia de que a Lava-Jato e a Rede Globo façam parte das forças externas que promovem o “Desgoverno Geral” no Brasil, ganha ainda maior força e evidência. Não podemos nos esquecer que SOMENTE a classe trabalhadora pode defender o Brasil dos ataques – externos e internos – que todos nós estamos sofrendo.

A mobilização é urgente e a luta será muito árdua. Caso sejamos derrotados, nos tornaremos em um protetorado econômico dos EUA e dos países da Zona do Euro. Um país vendido, fatiado e com o seu povo escravizado pelas mais perversas forças do capital.

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História do Brasil – Ano 2016

As primeiras horas de Dilma Rousseff depois de saber de seu afastamento da Presidência da República.

POR OLÍMPIO CRUZ NETO

Entre janeiro de 2014 e julho de 2015, o jornalista brasiliense Olímpio Cruz Neto, de 50 anos, foi o secretário de imprensa da presidente Dilma Rousseff. No Palácio do Planalto, seu trabalho era conduzir a política de relacionamento da chefe de Estado com a imprensa nacional e estrangeira, fazendo o contato diário com repórteres credenciados, além de produzir notas, briefings e acompanhar Dilma em viagens nacionais e internacionais. Nesse período, construiu uma ligação forte com a presidente, que lhe tratava pelo apelido de Olicruz, o acrônimo usado em seu endereço de e-mail.

Do dia 12 de maio, quando o Senado autorizou o afastamento dela do cargo até ela deixar o Palácio do Alvorada, em 6 de setembro, passaram-se 128 dias. É esse o foco de seu relato. Nesse período, Cruz Neto passou a descrever em detalhes o que se passava nos últimos dias da rotina presidencial. O material já soma 225 páginas.

Nesse extrato do texto – que deve ser o primeiro capítulo de um livro a ser publicado em breve –, ele foca a narrativa na relação pessoal com Dilma, que usava um robe de seda e fumava charuto descalça na residência oficial, quando se viram logo depois da votação do afastamento. Foi quando também ela fez um comentário sobre o novo ministério de seu sucessor. “Só tem CCC: canalhas, calhordas e corruptos” e depois lhe recomendou um livro – que ela tinha lido com atenção – sobre impeachment e instabilidade na América Latina.

Atualmente, Cruz Neto é assessor do senador Jorge Vianna, do PT do Acre.

Será o nono livro escrito sobre o processo de impeachment da ex-presidente em menos de um ano.

CAPÍTULO 1
QUINTA-FEIRA, 12 DE MAIO DE 2016

Eram 15h40 quando cheguei ao Palácio da Alvorada, naquela tarde com gosto amargo na boca. Angústia de quem estava enojado até o peito. Poucas horas antes, havia acompanhado pela tevê o pronunciamento de Dilma Rousseff, após ela ser notificada de seu afastamento da Presidência da República por até 180 dias.

Barrado na altura do Palácio do Jaburu por um esquema de segurança instalado havia quase um mês, depois que a Câmara dos Deputados aprovara em 17 de abril o início do impeachment da presidenta, dei meu nome ao segurança. Liberado em cinco minutos, deslizei com o carro para dentro do Alvorada. Atrás da barreira, uma repórter da Globo gravava uma passagem.

Chaguinhas estava na porta de entrada dos funcionários, dentro do palácio. Espécie de gerente do Alvorada, encaminhou-me ao salão de jogos, instalado logo depois da sala de cinema. Passei pelo umbral recheado de poltronas Charles Eames e meus passos me levaram em seguida à mesa de Roberto Stuckert Filho. Fotógrafo oficial da presidenta há mais de cinco anos, Tuca me deu um abraço depois de brincar:

– Veio trabalhar, gordinho?

Ri alto.

Cumprimentei Glauber e Rafael, assistentes do fotógrafo. E acenei com a cabeça para a loura Elisa Smeniotto, assistente de Giles Azevedo, o poderoso ex-chefe de gabinete pessoal da presidenta. Na outrora sala de jogos, mesas haviam sido recém-instaladas, com computadores e outros equipamentos. No chão, caixas com documentos e material pessoal de Sandra Brandão – a “Google da Dilma” – e de Giles estavam espalhadas. Os dois não estavam presentes.

Tuca me direcionou a uma mesa com computador e telefone. O celular explodia com incessantes mensagens de WhatsApp e chamadas no celular pessoal. Perguntei ao fotógrafo, com quem trabalhara na redação d’O Globo ainda nos anos 90, onde estava a presidenta da República.

– Lá em cima, fumando um charuto. Foda, velho.

– Ela está bem? – indaguei.

– Cara, ela almoçou com uma galera. Lula, Berzoini e um monte de ministros. Onde você estava que não veio antes?

– Ô, Tuca, fui cortar o cabelo – respondi, mentindo. (Tinha ficado em casa aguardando um telefonema para ir ao Alvorada). – E o Lula? Como ele estava?

– Abatido. Nem falei com ele quando saiu daqui.

Puxei a cadeira e olhei os funcionários instalando mesas e empurrando caixas. Aquela sala, com oito mesas de madeira escura – típicas do Planalto e de Brasília dos anos 60 – seria o ambiente de trabalho pelos próximos meses, a depender do andamento do processo de impeachment conduzido no Senado da República. O local seria apelidado mais tarde de “Bunker da Resistência”.

A tevê ligada na Globonews cintilava com a reprise do discurso de Dilma, mais cedo, ainda no Planalto. Na sequência, a narrativa implacável das inusitadas comentaristas: Cristiana Lôbo e Eliane Cantanhede. As veteranas jornalistas se revezavam, com comentários ácidos sobre o ocaso do governo Dilma. Em intervalos, sucediam-se para falar a todo instante da importância daquele “dia histórico”. Ainda tive tempo de ouvir a apresentadora chamando Andrea Sadi, com os “bastidores do novo governo”.

Sorrindo, a repórter recita então os nomes dos novos ministros, puxando uma fieira sucessiva de velhas caras pálidas da política nacional. Algumas conhecidas do noticiário de escândalos do governo Fernando Henrique. Como o Quinteto Violado de Temer – Moreira, Geddel, Jucá, Padilha e Henrique Eduardo Alves… Aquilo soava mal na tevê. Eu ri e pisquei pra Tuca:

– É o Ministério Benjamin Button… Nasceu velho.

O WhatsApp segue explodindo com novas perguntas de jornalistas. Querem detalhes da agenda do dia, pedem entrevistas ou comentários de Dilma. Ignoro a maioria. Não tenho o que dizer. Ainda. Aproveito o aplicativo aberto e mando mensagem para Maria da Solidade de Oliveira Costa, a Suli, uma das assessoras especiais da presidenta, explicando que já estava no Alvorada porque havia sido chamado a falar com a Dilma. Em instantes, recebo a autorização para subir.

Cruzo as escadas até o Salão Dourado e vejo mais funcionários instalando novas mesas e armários nas salas viradas para a frente do Alvorada. Tuca me acompanha. Entramos numa das salas e deparamo-nos com Bullouwer, um dos ajudantes de ordens de Dilma. Ele sorri e cumprimenta-nos de pé. Abraçamo-nos e digo que estava ali porque havia sido chamado. Major do Exército brasileiro, o oficial me leva até a escada e Suli brinca comigo do alto:

– Vai emagrecer rapidinho nos próximos meses.

Eu a abraço e dou um beijo em sua bochecha. Saudamo-nos no momento difícil. Cruzo a porta até a antessala do escritório. No corredor, uma parede abriga a gravura de Vito Corleone, o grande personagem de Marlon Brando. O desenho é meu. Foi feito em 2014 e dado de presente a Dilma no dia do seu aniversário, em 14 de dezembro do ano seguinte. Estou surpreso. Não imaginava ver meu “Poderoso Chefão” ali.

Da suíte presidencial, uma voz familiar ressoa. É Dilma quem se aproxima. Está com um robe claro, descalça e de óculos de fundo de garrafa. Parece tranquila. Sorrindo, ela me anuncia:

– Olímpio Cruz, ôce tá bem, meu filho?

– Bom vê-la assim, sorridente, presidenta. Está animada.

Dois beijos e seu abraço apertado me deixam acanhado.

– Sabe que eles não vão me deixar deprimida. Não dou esse gostinho a eles. Senta, Olímpio.

O garçom entra e serve à presidenta uma limonada. Ela faz o movimento de pinça com os dedos. É a deixa para o adoçante. Em seguida, o rapaz serve água e café. Ela retoma a conversa:

– E aí, Olímpio?

– Eu é que pergunto, presidenta.

– Vamos trabalhar, né?

A seguir, repete um mantra que aprendi a ouvir nas viagens ao exterior e nas minhas idas ao Alvorada:

– Maaaarliiiii… Maaaarliiiii… Maaaarliiiii… – diz, elevando o tom de voz.

Sua assistente sai do quarto e a presidenta pede para ligar o ar-condicionado e fechar as cortinas.

– Tá muito quente aqui.

Em seguida, volta-se para mim.

– Vamos trabalhar muito – diz, anunciando que está disposta e cheia de energia para seguir adiante, percorrendo o país e o mundo para denunciar o golpe que sofrera naquele dia. Diz que chegou a hora de fazer barulho.

– Quero fazer um blog, diário. Todo dia colocar uma coisa.

– Isso é ótimo. Temos de usar os recursos da internet para fazer barulho, presidenta… Facebook, Twitter e o blog. Combinamos com o Stuckert e a Paulinha [Zagotta, jornalista, uma das responsáveis pela administração dos perfis de Dilma nas redes sociais].

– Isso, isso… No blog, vou colocar fotos, textos e vídeos. Vamos dar recados.

Dilma está tranquila. As unhas dos pés, pintadas impecavelmente de vermelho, fazem um contraste com a sua pele clara. Os pés são pequenos, claros e delicados. Ela calça 35. Nem parece, porque não é uma mulher de baixa estatura. As mãos são de sinhazinha, com dedos finos estendidos a partir das mãos pequeninas, o que sempre me chamou atenção. Mãos delicadas.

A presidenta está vestida com um chambre branco, longo e uma estampa colorida na altura do peito. É inusitado vê-la tão à vontade, com os pés à vista, descalça. Eu já a vira usando aquela mesma roupa, mas de sandália, durante a campanha da reeleição em 2014, nos preparativos de um debate televisivo, em pleno Alvorada, rodeada por João Santana, Franklin Martins e outros colaboradores do chamado núcleo duro. Eram dias de concentração extrema e forte tensão, porque a disputa era ferrenha.

Mas agora era diferente. Dilma está tranquila. Bem mais magra do que antes, mas um pouco encurvada. Está ferida, mas muito altiva e viva. Seus olhos estão alertas e saltitantes. Os pés permanecem estendidos à minha frente em cima de um pufe do designer americano Charles Eames, enquanto ela se estica no sofá, tendo uma almofada nas mãos.

Então, puxa o telefone e pede à telefonista uma ligação, enquanto aguarda, encarando-me. Depois de alguns segundos calada, fala ao interlocutor:

– Ô, Alexandre. Segura mais uns dias o Olímpio no banco, viu? Espera um pouco até eu acertar a vida dele aqui. Tá bom? Ok?… Ok… Obrigada. Abraço.

Sorrindo para mim, ela pisca.

– O Alexandre é joia. Cê vem pra cá depois.

O personagem de quem ela fala é Alexandre Abreu, presidente do Banco do Brasil. Não por acaso, era meu assessorado desde que saíra do Palácio do Planalto, em agosto de 2015, depois de uma conversa queixosa que tive com ela, na mesma tarde em que Dilma foi saudada por índios numa cerimônia dos Jogos Indígenas. A solenidade do famoso discurso da mandioca. Foi quando decidi deixar a Secretaria de Imprensa.

É preciso dizer que foi a própria presidenta quem me indicou para a assessoria de Abreu, um capixaba de 50 anos, simpático e falante, com quem trabalhei nos últimos nove meses desde que acertara com ela o meu desligamento da Presidência da República. Fechando este preâmbulo, confesso que gostei de retomar o contato direto.

Digo, meio sem graça, que estava ali para conversar porque tinha sido surpreendido por jornalistas naquela manhã, bem cedo, perguntando a mim sobre a nomeação como seu assessor especial, justamente no período do afastamento. O despacho havia sido publicado no Diário Oficial da União. Ela me interrompe.

– Ué? Já saiu? Então, tem de vir logo, porque não dá para ser nomeado aqui e continuar no banco.

Eu disse à presidenta que estaria disponível na semana que vem. Ela fala para eu ficar tranquilo, que vai dar tudo certo. Mas já me dá as primeiras instruções:

– Ocê vai preparar aquelas análises de mídia, diárias, dos jornais e dos blogs (sujos!). Isso pra começar. E já pode ser na semana que vem. Eu viajo amanhã para Porto Alegre e volto segunda de manhã. Ou domingo, não sei ainda…

Digo que tenho muitos pedidos de entrevistas.

– Quem? – ela questiona.

Dou início às indicações que marquei numa lista:

– Tania (Monteiro, repórter do Estadão)…

– Agora, não.

– [Luís] Nassif…

– Faço.

– Paulo Henrique [Amorim]…

– Faço.

– Acho que a senhora deveria falar também com Glenn Greenwald.

Relato que o jornalista americano – mundialmente famoso por revelar a espionagem dos Estados Unidos e o jogo pesado da Agência Nacional de Segurança (NSA) graças a documentos repassados por Edward Snowden –, publicara naquele mesmo dia um artigo “A democracia brasileira sofrerá um duro revés com a posse de um inelegível e corrupto neoliberal” e que ela precisava ler na íntegra. O texto havia saído horas antes no site The Intercept.

– A senhora chegou a ler?

– Não. Mande pra mim. Faz o contato com ele e traga-o aqui. Vamos fazer muitas coisas aqui, Olímpio.

Por 35 minutos, Dilma me fala de seus planos imediatos – entrevista para jornalistas estrangeiros na manhã seguinte, viagens pelo Nordeste, agendas no Alvorada, compromissos em universidades e sindicatos pelo Brasil. Sugiro um artigo, a ser publicado em veículo estrangeiro, nos próximos dias, tendo como base o discurso de resistência do Planalto. Ela concorda.

– Você lê bem inglês, né Olímpio?

Confirmo e ela grita o nome de Deise.

– Ô Deise, traga o meu Kindle. Olímpio, você precisa ler o livro do argentino sobre impeachment.

Ao receber o aparelho das mãos de Deise Ramos, outra de suas assessoras pessoais, a presidenta digita com os dedinhos o nome de Aníbal Pérez-Liñan. E dita a mim o nome do livro.

– Tem que ler esse livro. Chama-se Presidential Impeachment and the New Political Instability in Latin America. A edição eletrônica está disponível na Amazon.

– Eu vou comprar, presidenta.

– Ele tem muitos argumentos sobre como o impeachment está sendo usado na América Latina. Fala inclusive do papel dos meios de comunicação oligopolizados da região.

De pronto, indago se ela vai para fora do país, após ter falado do desejo de dar início à sua tour de resistência pelo Nordeste. Dilma confirma visitas a países da América Latina e eu sugiro pelo menos duas visitas que considero importantes: Rússia e China.

– A senhora tem de ir a esses países para falar sobre o golpe e apontar os riscos aos BRICS. Conversar com (Vladimir) Putin e o presidente Xi-Jinping.

Ela concorda, maneando a cabeça. Para emendar outro assunto, na sequência, sugiro aquilo que mais me empolgava, desde a primeira sondagem para voltarmos a trabalhar juntos: um livro.

– A senhora precisa contar a sua história e o legado do seu governo. Como chegamos a essa situação absurda. Isso é história. A senhora deve isso a si e ao país.

Dilma abre um sorriso e dá para ver uma fagulha se espalhando pelos olhos. A expressão de menina peralta se expande e seu rosto se ilumina.

– Claro. Vamos escrever. Ótima ideia – diz, esfregando os braços. Vai ser O Diário do Impeachment – diz, juntando em seguida as mãos e sorrindo com sinceridade.

– Presidenta, imagino que a gente podia fazer pelo menos três horas semanais de entrevistas como método inicial. Eu faço a gravação do material à medida que vamos trabalhando, trazendo suas memórias, relatos e opiniões. Revisamos o material, juntos, adequamos tudo e, sem pressa, deixamos para depois o tempo de organização do livro. Não precisa ser para já.

Ela concorda, acenando com a cabeça e sorri. Parece imensamente satisfeita com a modesta sugestão. Está tão empolgada com a ideia do livro que sorri estalando a língua, como se estivéssemos tratando de um passeio pela Disney. Nem parece a chefe de Estado que está vivendo há menos de cinco horas a condição inédita de ser a única presidente da República afastada do exercício do poder sem provas de crime de responsabilidade.

Penso que Dilma parece melhor preparada diante das situações de adversidade. Eu já a vira assim, quicando, em algumas situações durante a campanha de reeleição.

Era um contraste absurdo com a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu quase ministro-chefe da Casa Civil. Lula a abraçara há poucas horas, na porta da frente do Palácio do Planalto, completamente amuado e abatido, enquanto ela, estoicamente, seguia em direção a uma multidão, que a saudava com “Dilma, Guerreira da Pátria Brasileira”.

Em instantes, falaria ao microfone, num púlpito improvisado no pé da rampa do Planalto, onde encerraria o ato com seu segundo discurso de resistência e resignação.

Dilma parece a mesma doce guerrilheira dos anos 60, com ânimo para denunciar a injustiça munida apenas de sua voz e a justa indignação dos perseguidos.

Saio dos meus pensamentos quando ela me pergunta a seguir sobre os nomes dos ministros de Temer. Queria saber o que estava dando a imprensa. Sua curiosidade é para saber quem havia sido indicado para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e para a pasta das Minas e Energia.

Informo que Marcos Pereira, presidente do PRB, evangélico ligado à Igreja Universal do Reino de Deus e ex-diretor da Rede Record, tinha sido convidado para o primeiro cargo. Um estranho personagem à frente de um ministério que tivera no comando o empresário e senador pernambucano Armando Monteiro Neto (PTB-PE).

– Incrível! – ela exclama. – Esse rapaz, o bispo, foi chamado primeiro para Agricultura, depois para Ciência e Tecnologia… Agora vai pro Desenvolvimento.

Digo que a tragédia do ministério Temer podia ainda ser pior, ao citar o caso do deputado Newton Cardoso Jr. (PMDB-MG). Filho do ex-governador de Minas Gerais, ele se anunciou no Facebook no dia anterior como ministro da Defesa, após se encontrar com Temer no Jaburu. Horas depois, a repercussão na imprensa foi inabalavelmente ruim. Valdo Cruz, ainda na Folha, deu a grita dos militares. Newtinho acabou vetado pelos militares para comandar as Forças Armadas. Era apenas mais uma das indicações estranhas do novo governo velho.

– Não há um notável – aponto.

– Só há notórios. Um CCC – diz.

Antes mesmo que eu perguntasse o significado da sigla, ela lista: “canalhas, calhordas e corruptos”. Seu semblante muda. Fica séria e eu toco no assunto das traições.

– Veja você, aquele rapaz. Pediu demissão do ministério na sexta e no domingo estava liderando a bancada pelo impeachment. Isso mostra a questão do caráter das pessoas.

A referência velada é ao ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro das Cidades, Gilberto Kassab, que seria confirmado por Michel Temer, naquele mesmo dia, pouco depois dessa conversa com Dilma, como o novo ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, na cerimônia que ocorreria em instantes no Palácio do Planalto.

Dilma foi apunhalada pelas costas não apenas por Kassab, mas também por muitos outros políticos. No início do governo Temer, havia pelo menos uma dezena de ex-ministros que serviram a ela. Alguns desses colaboradores, inclusive, muito próximos. Outros, nem tanto. Dilma cita os nomes de Moreira Franco e Eliseu Padilha, dois de seus ex-ministros que estiveram no centro da conspiração desde o começo. Mas a esses ela mesma nunca foi muito chegada. São apenas alguns dos políticos reconhecidamente sem votos. Dois dos conspiradores mais próximos de Temer.

O semblante dela fica mais carregado quando indago se tinha conhecimento de que Thomas Traumann vinha atuando como consultor de Moreira Franco, ex-governador do Rio adversário de Brizola nas eleições de 1982. O ex-porta-voz de Dilma e ex-ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República fora flagrado, semanas antes, visitando Temer em São Paulo, ao lado de Moreira Franco.

– Grande Thomas! Grande Thomas… Eu realmente fico pasma com a deslealdade e a traição – lamenta. – E, para não dizer, da falta de caráter.

Eu permaneço mudo. Dilma também, mas em seguida ela sorri novamente ao mencionar o nome de uma mulher de quem se afeiçoara.

– Mas também tive boas surpresas, como a Kátia Abreu.

Ela tem razão. A ex-ministra da Agricultura, que passou uma década fazendo oposição a Lula e aos governos do PT, veio a migrar do Democratas para a base de apoio ao governo Dilma depois da aprovação do Código Florestal, em 2012. No sábado, imediatamente anterior à Quinta-Feira da Traição, Dilma estivera com ela em Palmas, no Tocantins, inaugurando uma unidade da Embrapa. Um almoço na casa de Kátia, regado a vinho, marcou o último compromisso fora de Brasília de Dilma antes daquele fatídico “Dia D”, 12 de maio, o dia da consumação da grande conspirata. Kátia mostrou-se uma amiga leal até o fim daqueles dias.

Um colega da bancada do Tocantins da senadora fizera o papel de emissário das más notícias naquele 12 de maio. Cinco horas depois de receber a notificação das mãos do senador Vicentinho Alves (PR-TO), Dilma parecia leve, apesar do infortúnio que a afastou do cargo para o qual fora eleita em 2014 por 54,5 milhões de votos.

Começava, naquela estranha quinta-feira, mais uma etapa de resistência na vida da ex-guerrilheira e primeira presidenta da República, eleita por duas vezes pela maioria do povo brasileiro.

OLÍMPIO CRUZ NETO

Belchior – Morre um dos brasileiros mais inteligentes desse país

Foto: Elza Fiúza / Arquivo / Agência Brasil

Mesmo recluso, distante dos holofotes, Belchior nunca deixou de acompanhar e refletir sobre a política nacional e mundial. Isso é o que dizem as pessoas mais próximas dele em Santa Cruz do Sul, cidade onde morou nos últimos quatro anos como um anônimo e onde conviveu com um grupo bastante restrito de pessoas.

Segundo relatos destas pessoas, além de seu profundo interesse pelas artes, em especial pela literatura, o cantor e compositor via com preocupação o cenário político nacional. A escritora Célia Zingler, que era amiga de Belchior há três anos, diz que o impeachment de Dilma era compreendido pelo compositor como um “golpe” que o entristecia.

“Ele era uma pessoa de esquerda, muito solidária, que entendia tudo que estava passando no Brasil e no mundo. Ele ficou muito, muito triste com o golpe que foi dado na senhora Dilma. Ele ficou extremamente triste com isso. Ele ficava muito triste com a situação que o país está se encaminhando e é uma coisa que ele não deixava de expressar. Sempre usou a palavra golpe (para se referir ao impeachment)”, relata Célia Zingler.

O escritor Dogival Duarte, diretor da Rádio Santa Cruz, que chegou a hospedar Belchior por um ano e meio em casa, reforça que o compositor discordava do impeachment de Dilma.

“Ele estava sempre atento a todas as questões nacionais e internacionais. De fato ele achava que não era momento para isso (impeachment), que o país tinha que progredir com calma. Ele também falava muito da política do Obama, gostava muito dele. Ele tava sempre preocupado com o país. Ele estava retirado do mundo, mas via o mundo. O mundo não via ele. Tinha uma inteligência de águia. Achava que a Dilma ia bem e que, portanto, ela deveria ter continuado. Mas a gente não entrava muito nessas questões porque eu puxava para a literatura. Eu estou lançando um livro agora, foi ele que corrigiu”, afirma Dogival.

http://www.radioguaiba.com.br/noticia/belchior-estava-preocupado-com-situacao-do-pais-relatam-amigos/