A TEORIA DO DESGOVERNO GERAL

Ainda no ano de 2015 publiquei um texto defendendo a tese de que os países periféricos do Mundo atravessavam por desestabilizações políticas criadas por forças externas.  Essas desestabilizações teriam o apoio de setores conservadores desses países. Mas o objetivo final dessas forças externas não seria colocar esses setores no poder (como já ocorreu no passado). Teriam seus próprios interesses autônomos e isolados. Chamei essa tese de “Teoria do Desgoverno Geral”.

Defendi naquela ocasião a ideia de que um Golpe de Estado ocorreria no Brasil, correspondendo a determinados interesses estrangeiros, em especial os dos EUA. Para mim estava claro que por um momento esses interesses iriam convergir com alguns interesses políticos e econômicos locais (da direita brasileira). Porém, esse golpe externo estaria destinado a se desprender desses interesses locais em algum momento e começaria a operar de maneira autônoma e dissonante. Com isso, teríamos depois de um golpe contra Dilma, uma eventual cassação de Temer e uma perseguição à própria direita. Esse último fato em princípio agradaria a esquerda por razões óbvias… Porém, na prática esses fatos estariam exatamente de acordo com a “política de descarrilhamento” ou, o que chamei de “Teoria do Desgoverno Geral”.

Seguindo essa teoria, o que interessaria ao imperialismo é justamente o desgoverno contínuo. Para que? Simples: para comprar o Brasil a preço baixo. Assim, esse desgoverno contínuo atuaria como uma espécie de terrorismo econômico, fazendo com que as grandes empresas dos países imperialistas pudessem comprar nossas empresas, nossas riquezas naturais e setores inteiros da nossa economia a custo baixo, como uma grande massa falida…

Com a queda de Dilma e a deposição de Temer, teríamos o dólar indo às alturas e as empresas nacionais perdendo valor real e nominal. Um verdadeiro caos econômico… Com isso as grandes corporações norte-americanas conseguiriam, por exemplo, comprar toda a nação a preço de banana. Certa ou errada, os fatos estão ocorrendo exatamente conforme a teoria que desenvolvi há anos atrás.E agora o que interessa é que entramos em um momento decisivo na História desse golpe.

A única forma de garantir a normalidade do Brasil e a nossa soberania política é a mobilização imediata de milhões de brasileiro nas ruas até a deposição de Temer. Depois disso, a luta deve ser pelas DIRETAS JÁ. Esperar que algum tribunal – sob o comando de nossos nobres juízes escravocratas – ou a Rede Globo represente os interesses populares é uma fantasia pueril. Aliás, é bem provável que nesse momento a Rede Globo inclusive incentive a deposição de Temer. Com isso, a ideia de que a Lava-Jato e a Rede Globo façam parte das forças externas que promovem o “Desgoverno Geral” no Brasil, ganha ainda maior força e evidência. Não podemos nos esquecer que SOMENTE a classe trabalhadora pode defender o Brasil dos ataques – externos e internos – que todos nós estamos sofrendo.

A mobilização é urgente e a luta será muito árdua. Caso sejamos derrotados, nos tornaremos em um protetorado econômico dos EUA e dos países da Zona do Euro. Um país vendido, fatiado e com o seu povo escravizado pelas mais perversas forças do capital.

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História do Brasil – Ano 2016

As primeiras horas de Dilma Rousseff depois de saber de seu afastamento da Presidência da República.

POR OLÍMPIO CRUZ NETO

Entre janeiro de 2014 e julho de 2015, o jornalista brasiliense Olímpio Cruz Neto, de 50 anos, foi o secretário de imprensa da presidente Dilma Rousseff. No Palácio do Planalto, seu trabalho era conduzir a política de relacionamento da chefe de Estado com a imprensa nacional e estrangeira, fazendo o contato diário com repórteres credenciados, além de produzir notas, briefings e acompanhar Dilma em viagens nacionais e internacionais. Nesse período, construiu uma ligação forte com a presidente, que lhe tratava pelo apelido de Olicruz, o acrônimo usado em seu endereço de e-mail.

Do dia 12 de maio, quando o Senado autorizou o afastamento dela do cargo até ela deixar o Palácio do Alvorada, em 6 de setembro, passaram-se 128 dias. É esse o foco de seu relato. Nesse período, Cruz Neto passou a descrever em detalhes o que se passava nos últimos dias da rotina presidencial. O material já soma 225 páginas.

Nesse extrato do texto – que deve ser o primeiro capítulo de um livro a ser publicado em breve –, ele foca a narrativa na relação pessoal com Dilma, que usava um robe de seda e fumava charuto descalça na residência oficial, quando se viram logo depois da votação do afastamento. Foi quando também ela fez um comentário sobre o novo ministério de seu sucessor. “Só tem CCC: canalhas, calhordas e corruptos” e depois lhe recomendou um livro – que ela tinha lido com atenção – sobre impeachment e instabilidade na América Latina.

Atualmente, Cruz Neto é assessor do senador Jorge Vianna, do PT do Acre.

Será o nono livro escrito sobre o processo de impeachment da ex-presidente em menos de um ano.

CAPÍTULO 1
QUINTA-FEIRA, 12 DE MAIO DE 2016

Eram 15h40 quando cheguei ao Palácio da Alvorada, naquela tarde com gosto amargo na boca. Angústia de quem estava enojado até o peito. Poucas horas antes, havia acompanhado pela tevê o pronunciamento de Dilma Rousseff, após ela ser notificada de seu afastamento da Presidência da República por até 180 dias.

Barrado na altura do Palácio do Jaburu por um esquema de segurança instalado havia quase um mês, depois que a Câmara dos Deputados aprovara em 17 de abril o início do impeachment da presidenta, dei meu nome ao segurança. Liberado em cinco minutos, deslizei com o carro para dentro do Alvorada. Atrás da barreira, uma repórter da Globo gravava uma passagem.

Chaguinhas estava na porta de entrada dos funcionários, dentro do palácio. Espécie de gerente do Alvorada, encaminhou-me ao salão de jogos, instalado logo depois da sala de cinema. Passei pelo umbral recheado de poltronas Charles Eames e meus passos me levaram em seguida à mesa de Roberto Stuckert Filho. Fotógrafo oficial da presidenta há mais de cinco anos, Tuca me deu um abraço depois de brincar:

– Veio trabalhar, gordinho?

Ri alto.

Cumprimentei Glauber e Rafael, assistentes do fotógrafo. E acenei com a cabeça para a loura Elisa Smeniotto, assistente de Giles Azevedo, o poderoso ex-chefe de gabinete pessoal da presidenta. Na outrora sala de jogos, mesas haviam sido recém-instaladas, com computadores e outros equipamentos. No chão, caixas com documentos e material pessoal de Sandra Brandão – a “Google da Dilma” – e de Giles estavam espalhadas. Os dois não estavam presentes.

Tuca me direcionou a uma mesa com computador e telefone. O celular explodia com incessantes mensagens de WhatsApp e chamadas no celular pessoal. Perguntei ao fotógrafo, com quem trabalhara na redação d’O Globo ainda nos anos 90, onde estava a presidenta da República.

– Lá em cima, fumando um charuto. Foda, velho.

– Ela está bem? – indaguei.

– Cara, ela almoçou com uma galera. Lula, Berzoini e um monte de ministros. Onde você estava que não veio antes?

– Ô, Tuca, fui cortar o cabelo – respondi, mentindo. (Tinha ficado em casa aguardando um telefonema para ir ao Alvorada). – E o Lula? Como ele estava?

– Abatido. Nem falei com ele quando saiu daqui.

Puxei a cadeira e olhei os funcionários instalando mesas e empurrando caixas. Aquela sala, com oito mesas de madeira escura – típicas do Planalto e de Brasília dos anos 60 – seria o ambiente de trabalho pelos próximos meses, a depender do andamento do processo de impeachment conduzido no Senado da República. O local seria apelidado mais tarde de “Bunker da Resistência”.

A tevê ligada na Globonews cintilava com a reprise do discurso de Dilma, mais cedo, ainda no Planalto. Na sequência, a narrativa implacável das inusitadas comentaristas: Cristiana Lôbo e Eliane Cantanhede. As veteranas jornalistas se revezavam, com comentários ácidos sobre o ocaso do governo Dilma. Em intervalos, sucediam-se para falar a todo instante da importância daquele “dia histórico”. Ainda tive tempo de ouvir a apresentadora chamando Andrea Sadi, com os “bastidores do novo governo”.

Sorrindo, a repórter recita então os nomes dos novos ministros, puxando uma fieira sucessiva de velhas caras pálidas da política nacional. Algumas conhecidas do noticiário de escândalos do governo Fernando Henrique. Como o Quinteto Violado de Temer – Moreira, Geddel, Jucá, Padilha e Henrique Eduardo Alves… Aquilo soava mal na tevê. Eu ri e pisquei pra Tuca:

– É o Ministério Benjamin Button… Nasceu velho.

O WhatsApp segue explodindo com novas perguntas de jornalistas. Querem detalhes da agenda do dia, pedem entrevistas ou comentários de Dilma. Ignoro a maioria. Não tenho o que dizer. Ainda. Aproveito o aplicativo aberto e mando mensagem para Maria da Solidade de Oliveira Costa, a Suli, uma das assessoras especiais da presidenta, explicando que já estava no Alvorada porque havia sido chamado a falar com a Dilma. Em instantes, recebo a autorização para subir.

Cruzo as escadas até o Salão Dourado e vejo mais funcionários instalando novas mesas e armários nas salas viradas para a frente do Alvorada. Tuca me acompanha. Entramos numa das salas e deparamo-nos com Bullouwer, um dos ajudantes de ordens de Dilma. Ele sorri e cumprimenta-nos de pé. Abraçamo-nos e digo que estava ali porque havia sido chamado. Major do Exército brasileiro, o oficial me leva até a escada e Suli brinca comigo do alto:

– Vai emagrecer rapidinho nos próximos meses.

Eu a abraço e dou um beijo em sua bochecha. Saudamo-nos no momento difícil. Cruzo a porta até a antessala do escritório. No corredor, uma parede abriga a gravura de Vito Corleone, o grande personagem de Marlon Brando. O desenho é meu. Foi feito em 2014 e dado de presente a Dilma no dia do seu aniversário, em 14 de dezembro do ano seguinte. Estou surpreso. Não imaginava ver meu “Poderoso Chefão” ali.

Da suíte presidencial, uma voz familiar ressoa. É Dilma quem se aproxima. Está com um robe claro, descalça e de óculos de fundo de garrafa. Parece tranquila. Sorrindo, ela me anuncia:

– Olímpio Cruz, ôce tá bem, meu filho?

– Bom vê-la assim, sorridente, presidenta. Está animada.

Dois beijos e seu abraço apertado me deixam acanhado.

– Sabe que eles não vão me deixar deprimida. Não dou esse gostinho a eles. Senta, Olímpio.

O garçom entra e serve à presidenta uma limonada. Ela faz o movimento de pinça com os dedos. É a deixa para o adoçante. Em seguida, o rapaz serve água e café. Ela retoma a conversa:

– E aí, Olímpio?

– Eu é que pergunto, presidenta.

– Vamos trabalhar, né?

A seguir, repete um mantra que aprendi a ouvir nas viagens ao exterior e nas minhas idas ao Alvorada:

– Maaaarliiiii… Maaaarliiiii… Maaaarliiiii… – diz, elevando o tom de voz.

Sua assistente sai do quarto e a presidenta pede para ligar o ar-condicionado e fechar as cortinas.

– Tá muito quente aqui.

Em seguida, volta-se para mim.

– Vamos trabalhar muito – diz, anunciando que está disposta e cheia de energia para seguir adiante, percorrendo o país e o mundo para denunciar o golpe que sofrera naquele dia. Diz que chegou a hora de fazer barulho.

– Quero fazer um blog, diário. Todo dia colocar uma coisa.

– Isso é ótimo. Temos de usar os recursos da internet para fazer barulho, presidenta… Facebook, Twitter e o blog. Combinamos com o Stuckert e a Paulinha [Zagotta, jornalista, uma das responsáveis pela administração dos perfis de Dilma nas redes sociais].

– Isso, isso… No blog, vou colocar fotos, textos e vídeos. Vamos dar recados.

Dilma está tranquila. As unhas dos pés, pintadas impecavelmente de vermelho, fazem um contraste com a sua pele clara. Os pés são pequenos, claros e delicados. Ela calça 35. Nem parece, porque não é uma mulher de baixa estatura. As mãos são de sinhazinha, com dedos finos estendidos a partir das mãos pequeninas, o que sempre me chamou atenção. Mãos delicadas.

A presidenta está vestida com um chambre branco, longo e uma estampa colorida na altura do peito. É inusitado vê-la tão à vontade, com os pés à vista, descalça. Eu já a vira usando aquela mesma roupa, mas de sandália, durante a campanha da reeleição em 2014, nos preparativos de um debate televisivo, em pleno Alvorada, rodeada por João Santana, Franklin Martins e outros colaboradores do chamado núcleo duro. Eram dias de concentração extrema e forte tensão, porque a disputa era ferrenha.

Mas agora era diferente. Dilma está tranquila. Bem mais magra do que antes, mas um pouco encurvada. Está ferida, mas muito altiva e viva. Seus olhos estão alertas e saltitantes. Os pés permanecem estendidos à minha frente em cima de um pufe do designer americano Charles Eames, enquanto ela se estica no sofá, tendo uma almofada nas mãos.

Então, puxa o telefone e pede à telefonista uma ligação, enquanto aguarda, encarando-me. Depois de alguns segundos calada, fala ao interlocutor:

– Ô, Alexandre. Segura mais uns dias o Olímpio no banco, viu? Espera um pouco até eu acertar a vida dele aqui. Tá bom? Ok?… Ok… Obrigada. Abraço.

Sorrindo para mim, ela pisca.

– O Alexandre é joia. Cê vem pra cá depois.

O personagem de quem ela fala é Alexandre Abreu, presidente do Banco do Brasil. Não por acaso, era meu assessorado desde que saíra do Palácio do Planalto, em agosto de 2015, depois de uma conversa queixosa que tive com ela, na mesma tarde em que Dilma foi saudada por índios numa cerimônia dos Jogos Indígenas. A solenidade do famoso discurso da mandioca. Foi quando decidi deixar a Secretaria de Imprensa.

É preciso dizer que foi a própria presidenta quem me indicou para a assessoria de Abreu, um capixaba de 50 anos, simpático e falante, com quem trabalhei nos últimos nove meses desde que acertara com ela o meu desligamento da Presidência da República. Fechando este preâmbulo, confesso que gostei de retomar o contato direto.

Digo, meio sem graça, que estava ali para conversar porque tinha sido surpreendido por jornalistas naquela manhã, bem cedo, perguntando a mim sobre a nomeação como seu assessor especial, justamente no período do afastamento. O despacho havia sido publicado no Diário Oficial da União. Ela me interrompe.

– Ué? Já saiu? Então, tem de vir logo, porque não dá para ser nomeado aqui e continuar no banco.

Eu disse à presidenta que estaria disponível na semana que vem. Ela fala para eu ficar tranquilo, que vai dar tudo certo. Mas já me dá as primeiras instruções:

– Ocê vai preparar aquelas análises de mídia, diárias, dos jornais e dos blogs (sujos!). Isso pra começar. E já pode ser na semana que vem. Eu viajo amanhã para Porto Alegre e volto segunda de manhã. Ou domingo, não sei ainda…

Digo que tenho muitos pedidos de entrevistas.

– Quem? – ela questiona.

Dou início às indicações que marquei numa lista:

– Tania (Monteiro, repórter do Estadão)…

– Agora, não.

– [Luís] Nassif…

– Faço.

– Paulo Henrique [Amorim]…

– Faço.

– Acho que a senhora deveria falar também com Glenn Greenwald.

Relato que o jornalista americano – mundialmente famoso por revelar a espionagem dos Estados Unidos e o jogo pesado da Agência Nacional de Segurança (NSA) graças a documentos repassados por Edward Snowden –, publicara naquele mesmo dia um artigo “A democracia brasileira sofrerá um duro revés com a posse de um inelegível e corrupto neoliberal” e que ela precisava ler na íntegra. O texto havia saído horas antes no site The Intercept.

– A senhora chegou a ler?

– Não. Mande pra mim. Faz o contato com ele e traga-o aqui. Vamos fazer muitas coisas aqui, Olímpio.

Por 35 minutos, Dilma me fala de seus planos imediatos – entrevista para jornalistas estrangeiros na manhã seguinte, viagens pelo Nordeste, agendas no Alvorada, compromissos em universidades e sindicatos pelo Brasil. Sugiro um artigo, a ser publicado em veículo estrangeiro, nos próximos dias, tendo como base o discurso de resistência do Planalto. Ela concorda.

– Você lê bem inglês, né Olímpio?

Confirmo e ela grita o nome de Deise.

– Ô Deise, traga o meu Kindle. Olímpio, você precisa ler o livro do argentino sobre impeachment.

Ao receber o aparelho das mãos de Deise Ramos, outra de suas assessoras pessoais, a presidenta digita com os dedinhos o nome de Aníbal Pérez-Liñan. E dita a mim o nome do livro.

– Tem que ler esse livro. Chama-se Presidential Impeachment and the New Political Instability in Latin America. A edição eletrônica está disponível na Amazon.

– Eu vou comprar, presidenta.

– Ele tem muitos argumentos sobre como o impeachment está sendo usado na América Latina. Fala inclusive do papel dos meios de comunicação oligopolizados da região.

De pronto, indago se ela vai para fora do país, após ter falado do desejo de dar início à sua tour de resistência pelo Nordeste. Dilma confirma visitas a países da América Latina e eu sugiro pelo menos duas visitas que considero importantes: Rússia e China.

– A senhora tem de ir a esses países para falar sobre o golpe e apontar os riscos aos BRICS. Conversar com (Vladimir) Putin e o presidente Xi-Jinping.

Ela concorda, maneando a cabeça. Para emendar outro assunto, na sequência, sugiro aquilo que mais me empolgava, desde a primeira sondagem para voltarmos a trabalhar juntos: um livro.

– A senhora precisa contar a sua história e o legado do seu governo. Como chegamos a essa situação absurda. Isso é história. A senhora deve isso a si e ao país.

Dilma abre um sorriso e dá para ver uma fagulha se espalhando pelos olhos. A expressão de menina peralta se expande e seu rosto se ilumina.

– Claro. Vamos escrever. Ótima ideia – diz, esfregando os braços. Vai ser O Diário do Impeachment – diz, juntando em seguida as mãos e sorrindo com sinceridade.

– Presidenta, imagino que a gente podia fazer pelo menos três horas semanais de entrevistas como método inicial. Eu faço a gravação do material à medida que vamos trabalhando, trazendo suas memórias, relatos e opiniões. Revisamos o material, juntos, adequamos tudo e, sem pressa, deixamos para depois o tempo de organização do livro. Não precisa ser para já.

Ela concorda, acenando com a cabeça e sorri. Parece imensamente satisfeita com a modesta sugestão. Está tão empolgada com a ideia do livro que sorri estalando a língua, como se estivéssemos tratando de um passeio pela Disney. Nem parece a chefe de Estado que está vivendo há menos de cinco horas a condição inédita de ser a única presidente da República afastada do exercício do poder sem provas de crime de responsabilidade.

Penso que Dilma parece melhor preparada diante das situações de adversidade. Eu já a vira assim, quicando, em algumas situações durante a campanha de reeleição.

Era um contraste absurdo com a imagem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu quase ministro-chefe da Casa Civil. Lula a abraçara há poucas horas, na porta da frente do Palácio do Planalto, completamente amuado e abatido, enquanto ela, estoicamente, seguia em direção a uma multidão, que a saudava com “Dilma, Guerreira da Pátria Brasileira”.

Em instantes, falaria ao microfone, num púlpito improvisado no pé da rampa do Planalto, onde encerraria o ato com seu segundo discurso de resistência e resignação.

Dilma parece a mesma doce guerrilheira dos anos 60, com ânimo para denunciar a injustiça munida apenas de sua voz e a justa indignação dos perseguidos.

Saio dos meus pensamentos quando ela me pergunta a seguir sobre os nomes dos ministros de Temer. Queria saber o que estava dando a imprensa. Sua curiosidade é para saber quem havia sido indicado para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e para a pasta das Minas e Energia.

Informo que Marcos Pereira, presidente do PRB, evangélico ligado à Igreja Universal do Reino de Deus e ex-diretor da Rede Record, tinha sido convidado para o primeiro cargo. Um estranho personagem à frente de um ministério que tivera no comando o empresário e senador pernambucano Armando Monteiro Neto (PTB-PE).

– Incrível! – ela exclama. – Esse rapaz, o bispo, foi chamado primeiro para Agricultura, depois para Ciência e Tecnologia… Agora vai pro Desenvolvimento.

Digo que a tragédia do ministério Temer podia ainda ser pior, ao citar o caso do deputado Newton Cardoso Jr. (PMDB-MG). Filho do ex-governador de Minas Gerais, ele se anunciou no Facebook no dia anterior como ministro da Defesa, após se encontrar com Temer no Jaburu. Horas depois, a repercussão na imprensa foi inabalavelmente ruim. Valdo Cruz, ainda na Folha, deu a grita dos militares. Newtinho acabou vetado pelos militares para comandar as Forças Armadas. Era apenas mais uma das indicações estranhas do novo governo velho.

– Não há um notável – aponto.

– Só há notórios. Um CCC – diz.

Antes mesmo que eu perguntasse o significado da sigla, ela lista: “canalhas, calhordas e corruptos”. Seu semblante muda. Fica séria e eu toco no assunto das traições.

– Veja você, aquele rapaz. Pediu demissão do ministério na sexta e no domingo estava liderando a bancada pelo impeachment. Isso mostra a questão do caráter das pessoas.

A referência velada é ao ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro das Cidades, Gilberto Kassab, que seria confirmado por Michel Temer, naquele mesmo dia, pouco depois dessa conversa com Dilma, como o novo ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, na cerimônia que ocorreria em instantes no Palácio do Planalto.

Dilma foi apunhalada pelas costas não apenas por Kassab, mas também por muitos outros políticos. No início do governo Temer, havia pelo menos uma dezena de ex-ministros que serviram a ela. Alguns desses colaboradores, inclusive, muito próximos. Outros, nem tanto. Dilma cita os nomes de Moreira Franco e Eliseu Padilha, dois de seus ex-ministros que estiveram no centro da conspiração desde o começo. Mas a esses ela mesma nunca foi muito chegada. São apenas alguns dos políticos reconhecidamente sem votos. Dois dos conspiradores mais próximos de Temer.

O semblante dela fica mais carregado quando indago se tinha conhecimento de que Thomas Traumann vinha atuando como consultor de Moreira Franco, ex-governador do Rio adversário de Brizola nas eleições de 1982. O ex-porta-voz de Dilma e ex-ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República fora flagrado, semanas antes, visitando Temer em São Paulo, ao lado de Moreira Franco.

– Grande Thomas! Grande Thomas… Eu realmente fico pasma com a deslealdade e a traição – lamenta. – E, para não dizer, da falta de caráter.

Eu permaneço mudo. Dilma também, mas em seguida ela sorri novamente ao mencionar o nome de uma mulher de quem se afeiçoara.

– Mas também tive boas surpresas, como a Kátia Abreu.

Ela tem razão. A ex-ministra da Agricultura, que passou uma década fazendo oposição a Lula e aos governos do PT, veio a migrar do Democratas para a base de apoio ao governo Dilma depois da aprovação do Código Florestal, em 2012. No sábado, imediatamente anterior à Quinta-Feira da Traição, Dilma estivera com ela em Palmas, no Tocantins, inaugurando uma unidade da Embrapa. Um almoço na casa de Kátia, regado a vinho, marcou o último compromisso fora de Brasília de Dilma antes daquele fatídico “Dia D”, 12 de maio, o dia da consumação da grande conspirata. Kátia mostrou-se uma amiga leal até o fim daqueles dias.

Um colega da bancada do Tocantins da senadora fizera o papel de emissário das más notícias naquele 12 de maio. Cinco horas depois de receber a notificação das mãos do senador Vicentinho Alves (PR-TO), Dilma parecia leve, apesar do infortúnio que a afastou do cargo para o qual fora eleita em 2014 por 54,5 milhões de votos.

Começava, naquela estranha quinta-feira, mais uma etapa de resistência na vida da ex-guerrilheira e primeira presidenta da República, eleita por duas vezes pela maioria do povo brasileiro.

OLÍMPIO CRUZ NETO

Belchior – Morre um dos brasileiros mais inteligentes desse país

Foto: Elza Fiúza / Arquivo / Agência Brasil

Mesmo recluso, distante dos holofotes, Belchior nunca deixou de acompanhar e refletir sobre a política nacional e mundial. Isso é o que dizem as pessoas mais próximas dele em Santa Cruz do Sul, cidade onde morou nos últimos quatro anos como um anônimo e onde conviveu com um grupo bastante restrito de pessoas.

Segundo relatos destas pessoas, além de seu profundo interesse pelas artes, em especial pela literatura, o cantor e compositor via com preocupação o cenário político nacional. A escritora Célia Zingler, que era amiga de Belchior há três anos, diz que o impeachment de Dilma era compreendido pelo compositor como um “golpe” que o entristecia.

“Ele era uma pessoa de esquerda, muito solidária, que entendia tudo que estava passando no Brasil e no mundo. Ele ficou muito, muito triste com o golpe que foi dado na senhora Dilma. Ele ficou extremamente triste com isso. Ele ficava muito triste com a situação que o país está se encaminhando e é uma coisa que ele não deixava de expressar. Sempre usou a palavra golpe (para se referir ao impeachment)”, relata Célia Zingler.

O escritor Dogival Duarte, diretor da Rádio Santa Cruz, que chegou a hospedar Belchior por um ano e meio em casa, reforça que o compositor discordava do impeachment de Dilma.

“Ele estava sempre atento a todas as questões nacionais e internacionais. De fato ele achava que não era momento para isso (impeachment), que o país tinha que progredir com calma. Ele também falava muito da política do Obama, gostava muito dele. Ele tava sempre preocupado com o país. Ele estava retirado do mundo, mas via o mundo. O mundo não via ele. Tinha uma inteligência de águia. Achava que a Dilma ia bem e que, portanto, ela deveria ter continuado. Mas a gente não entrava muito nessas questões porque eu puxava para a literatura. Eu estou lançando um livro agora, foi ele que corrigiu”, afirma Dogival.

http://www.radioguaiba.com.br/noticia/belchior-estava-preocupado-com-situacao-do-pais-relatam-amigos/

Brazil’s Leaders Tout Austerity (Just Not for Them)

Firefighters shouting slogans during a public servants’ demonstration against austerity measures in Rio de Janeiro. 

SÃO PAULO, Brazil — Brazil’s sickly economy is hemorrhaging thousands of jobs a day, states are scrambling to pay police officers and teachers, and money for subsidized meals is in such short supply that one legislator suggested that the poor could “eat every other day.”

Still, not everyone is suffering. Civil servants in the judicial branch are enjoying a 41 percent raise. Legislators here in São Paulo, Brazil’s largest city, voted to increase their own salaries by more than 26 percent. And Congress, which is preparing to cut pension benefits around the country, is now allowing its members to retire with lifelong pensions after just two years in office.

Brazil is struggling to pull out of its worst economic crisis in decades, and President Michel Temer says the country needs to curb public spending to do so.

Yet it did not help his dismal approval ratings when he hosted a lavish taxpayer-funded banquet to persuade members of Congress to support his budget cuts, with 300 guests eating shrimp and filet mignon.

Outside such rarefied circles, Mr. Temer’s austerity measures are igniting a fierce debate over how the richest and most powerful Brazilians are protecting their wealth and privileges at a time when much of the country is enduring a harrowing economic decline.

“This government talks about austerity for everyone, but of course forces the costs on society’s most vulnerable people,” said Giovana Santos Pereira, 25, a schoolteacher. “It’s ridiculous to the point of being tragic.”

Much of the ire revolves around the centerpiece of Mr. Temer’s austerity drive: his success in persuading the scandal-ridden Congress to impose a cap on federal spending for the next 20 years.

Mr. Temer, who rose to power last year after supporting the impeachment of his predecessor, Dilma Rousseff, says the cap, which would limit the growth in spending to the rate of inflation, is needed to scale back ballooning budget deficits.

Investors have applauded the measure as a turning point for Latin America’s largest economy. But critics are lashing out at the spending cap, saying it could harm the poor for decades to come, especially in areas like education. Philip Alston, the United Nations special rapporteur on extreme poverty and human rights, said the spending cap placed Brazil “in a socially retrogressive category all of its own.”

The debate is all the more caustic because Mr. Temer’s government is resisting calls to raise taxes on wealthy Brazilians, who still enjoy what some economists describe as one of the most generous tax systems for the rich among major economies.

For instance, Brazilians remain exempt from paying any taxes at all on dividends from stock holdings, and they can easily use loopholes to significantly lower taxes on other sources of income.

Economists at the government’s Institute of Applied Economic Research said in a 2016 study that a 15 percent tax on dividends could generate nearly $17 billion in revenue a year, but such proposals have failed to gain traction in a government that has shifted to the right.

“The system is engineered to perpetuate inequality, and Temer is doubling down on bets that Brazil needs Greek-style austerity,” said Pedro Paulo Zahluth Bastos, an economist at the University of Campinas, drawing parallels between Brazil’s multiyear slowdown and Greece’s seemingly interminable economic crisis.

Mr. Temer has not been a popular president, and his approval ratings stand at just 10 percent. But his supporters point out that his leftist predecessor, Ms. Rousseff, sought her own austerity measures before her ouster last year, and that his government has promised to maintain some widely popular antipoverty programs expanded by her party years ago.

Mr. Temer’s government says it is reversing the free-spending ways of previous governments. Brazil’s economy shrank about 4 percent in 2016, when its political class was consumed by infighting over the impeachment. But last month, the finance minister, Henrique Meirelles, claimed that “the recession has ended.”

President Michel Temer of Brazil aims to impose a cap on federal spending for the next 20 years.

Some promising signs of a recovery may be emerging. Foreign investment has increased and, after performing poorly, Brazil’s stock market was one of the best performing in the world in 2016, creating a windfall for the relatively prosperous Brazilians who put money into equities. Mr. Temer is especially bullish, predictingthat the economy will grow 3 percent next year.

But the conditions on the streets of cities around Brazil tell a different story, reflecting devilishly complex structural challenges as millions of Brazilians fall into poverty.

States are facing crippling strikes by public employees over unpaid or inadequate salaries. In the state of Espírito Santo, in southeast Brazil, a police strike last month produced an anarchic week marked by looting and a surge in homicides.

Rio de Janeiro, which hosted the Olympics in August, showcases the complex issues Brazil’s states face. In desperate efforts to slash deficits, the authorities in Rio are shutting down restaurants that provide subsidized meals to the poor, raising taxes on residential electricity service and eliminating welfare programs for the state’s poorest residents.

Yet Rio’s governor, like his counterparts in other Brazilian states, enjoys the use of a private jet for jaunts around the country. And Rio’s judges, already well paid, were pressing ahead with plans to spend millions of dollars hiring new servants for their chambers — until the public got wind of the plan. The ensuing outrage forced the judges to shelve the idea.

At the same time, the state is having trouble finding money to pay for food for the poor. The cost — about 65 cents a meal — was straining the state enough that one state legislator, Pedro Fernandes, suggested taking meals “every other day.”

“I don’t know if what I’m saying is absurd, but it’s something to ponder,” he said.

The ability of elected officials and elite public employees to secure what Brazilians call “super salaries” and outsize benefits for themselves has long been a contentious feature of the country’s political system.

But while Brazilians fume over the issue at a time of national belt-tightening, some officials say they are entitled to special treatment. Brazilian judges, who can easily make about $200,000 a year, have been especially outspoken in demanding raises in a country where roughly half the population scrapes by on a minimum wage of about $4,000.

“There’s no shame whatsoever in this,” Ricardo Lewandowski, a Supreme Court justice, recently told a conference of judges to a round of applause. “Building maintenance fees go up, real estate taxes go up, gasoline goes up, food goes up, and the judge’s salary can’t go up?”

As many poor and middle-class Brazilians absorb the brunt of austerity policies, the protracted economic slowdown and a dizzying array of graft scandals involving the nation’s political leaders are fueling anti-establishment sentiment ahead of presidential elections in 2018, paving the way for figures outside the mainstream to gain momentum.

Alarming some politicians, Jair Bolsonaro, an ultranationalist congressman who excoriates immigrants and defends the torture of drug traffickers, is polling well ahead of traditional contenders like Aécio Neves, a senator from the Brazilian Social Democracy Party.

According to a survey last month by MDA, a Brazilian polling company, just 1 percent of respondents said they would vote for Mr. Temer, reflecting his dismal nationwide standing. It may not even matter, since Mr. Temer’s conviction for violating campaign finance limits could make him ineligible to run. His popularity sustained another blow in recent days after his government spent thousands of dollars to upgrade the president’s luxurious residence, only for Mr. Temer to move his family back to another government-owned palace in the capital, Brasília.

The poll was conducted from Feb. 8 to 11 through interviews with 2,002 people, with a margin of sampling error or plus or minus 2.2 percentage points. It also showed a former president, Luiz Inácio Lula da Silva, as a potential front-runner.

But Mr. da Silva, a leftist who has been condemning Mr. Temer’s austerity measures, could also find himself ineligible to run if he is convicted of graft charges in connection with his ties to construction companies that profited from public contracts.

Given the volatile political landscape and the weak economy, a sense of hopelessness afflicts many Brazilians.

Ana Cristina Silva, 49, lost her job in December at a company in the southern city of Porto Alegre that assembles furniture.

“They just think about themselves,” she said about Mr. Temer’s government, expressing indignation about the pay increases granted to some public employees while much of the country is still reeling. “It’s absurd. Those who don’t need it get a raise.”

Correction: March 22, 2017
An article and a picture caption on March 4 about the privileges and wealth enjoyed by Brazil’s richest and most powerful citizens at a time when much of the country is enduring a harrowing economic decline misidentified the recipients of a raise in the country’s public sector. Civil servants in the judicial branch, not judges, received a 41 percent raise.

Sonegação Fiscal, o Esporte Predileto das Elites

Em época de austeridade fiscal e de reformas impopulares como a da Previdência, o combate à sonegação, que passa de R$ 400 bilhões ao ano no Brasil, é deixado de lado, escreve Tomás Rigoletto Pernías, doutorando em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da Unicamp, em artigo publicado por Brasil Debate, 25-04-2017: “Sonegação fiscal, o esporte predileto das elites” Veja também em IHU de 26 de abril de 2017.

Eis o artigo.

Em tempos de crescente desigualdade social, desemprego, rebaixamento dos salários, corte nos benefícios sociais e precarização dos serviços públicos, é imperioso frisar que há uma alternativa para a agenda de austeridade imposta pelo governo. Repetir o mantra “não há alternativa”, TINA – “There is no alternative“, também é, por seu turno, uma escolha.

O combate à sonegação fiscal, alternativa pouco lembrada pelos parlamentares quando o assunto concerne à arrecadação fiscal, passa ao largo da agenda governamental. Cumpre lembrar que o recém-eleito presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, ainda em 2016, procurou inviabilizar a continuidade da CPI do CARF,(Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) em clara tentativa de blindar investigações que miravam os grandes empresários e suas relações promíscuas com o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais.

Estima-se que, somente em 2013, o valor de impostos sonegados no Brasil tenha atingido R$ 415 bilhões. No ano seguinte, em 2014, o valor sonegado chegou aos R$ 500 bilhões. Tampouco em 2015, com o ex-ministro da fazenda Joaquim Levy – mãos de tesoura – e seu suposto rigor fiscal, o assunto foi tratado de maneira diferente, uma vez que a sonegação ultrapassou os R$ 420 bilhões.

Querido pelo mercado financeiro e bem visto pelos grandes veículos de comunicação, o atual ministro da Fazenda Henrique Meirelles parece ignorar que o combate à sonegação é uma alternativa viável às práticas de austeridade econômica. Em 2016, estimou-se que, novamente, R$ 500 bi foram sonegados.

Entretanto, mesmo após as experiências fracassadas dos países que optaram pelas vias da austeridade depois da crise de 2008, os parlamentares brasileiros aprovaram a PEC 55, que congelou por 20 anos os gastos do governo federal. O descaso relacionado à cobrança de recursos públicos afeta diretamente a previdência – alvo da vez – com somas que atingem R$ 426 bilhões devidos ao INSS por diversas empresas.

Em 2017, a sangria persiste: aproximadamente 158 bilhões sonegados. Neste mesmo ano, o ministro Henrique Meirelles sinaliza uma possível elevação de impostos, ao contrariar os anseios da notória campanha realizada pela FIESP – “não vou pagar o pato”. O motivo: evitar o descumprimento da meta fiscal e contornar a frustração da receita pública. Além disto, observa-se que o sistema tributário brasileiro, que já pune desproporcionalmente a população pobre, é marcado por seu caráter regressivo e injusto – como bem observado pelo colega Juliano Gourlarti em artigo publicado no Brasil Debate.

A sonegação também é um esporte praticado em outros países. Nos EUA, o Internal Revenue Service (agência norte-americana responsável pelo recolhimento dos impostos) estima que o net tax gap médio (diferença que nunca será recuperada entre o valor que deveria ser recolhido e o valor efetivamente recolhido) anual entre 2008-2010 seja de U$406 bilhões. Neste ínterim, Donald Trump procura desmantelar iniciativas como o Obamacare,ao dificultar ainda mais o acesso da população pobre ao sistema de saúde norte-americano, caracterizado por seus custos elevados em comparação com outros sistemas de saúde de países desenvolvidos.

No Reino Unido, em 2013: £119.4 bilhões foram estimados para o tax gap – a soma dos impostos não pagos, impostos evitados e a sonegação. Autoridades oficiais apontam um valor menor, mas ainda significativo. Entrementes, o National Health Service – sistema de saúde público inglês – sofre com os cortes promovidos pela austeridade fiscal, deteriorando a qualidade da oferta de serviços de saúde.

Para além das pessoas físicas que podem contratar serviços de “planejamento tributário” para seus impostos, o que dizer de empresas como a Apple, Google e empresas farmacêuticas, que surfaram em inovações tecnológicas criadas e financiadas pelo Estado – com o dinheiro de impostos dos contribuintes norte-americanos – mas que agora abusam de créditos fiscais/tributários e procuram fugir de suas obrigações fiscais? “Stay hungry, stay foolish” ?!? Mariana Mazzucato, em seu livro O Estado Empreendedor – Desmascarando o Mito do Setor Público Vs. o Setor Privado, explora a questão e demonstra como as grandes empresas que se apoiaram em recursos públicos estão falhando em dar a devida contrapartida à sociedade.

Cabe questionar: a quem interessa a sonegação e a morosidade com a cobrança dos impostos devidos? Ao trabalhador formal, certamente que não, posto que seu imposto de renda é retido na fonte. O escândalo recente “Panamá papers”, ao flagrar graúdos da política e mundo empresarial envolvidos em “contabilidade criativa” e alocação de recursos em paraísos fiscais, prova que a sonegação favorece a classe alta – em evidente detrimento do grosso da população.

É fundamental salientar que há uma alternativa aos descaminhos da austeridade fiscal. Para além de perseguir uma estratégia que priorize o crescimento econômico – sem o qual não haverá recuperação das receitas fiscais – é urgente a criação de um sistema tributário que combata a desigualdade e a sonegação.

A mesma mão que taxa pesadamente os pobres parece acariciar o bolso dos ricos. Essa mão não é invisível.

Afinal de contas, existe (ou não) almoço grátis?

https://leonardoboff.wordpress.com/2017/04/26/haveria-solucao-para-a-previdencia-cobrar-os-bilhoes-sonegados/

Considerações e estatísticas sobre a Operação Carne Fraca

Reportage de O Cafezinho.com

O problema da Operação Carne Fraca é o seguinte:

A Polícia Federal esqueceu que a sua função é proteger o cidadão, as empresas nacionais e o governo. Proteger o cidadão (e seu emprego!) contra fraudes, as empresas nacionais contra fraudadores, e o governo contra corruptos. A PF, ao invés disso, inverteu seu papel: tornou-se uma espécie de agência adversária da sociedade. Sua meta tem sido agredir o cidadão, destruir empresas e derrubar governos.

Se a PF identificou, há mais de dois anos, que havia problemas no mercado de carne, deveria ter alertado o governo, as empresas e os cidadãos, para que ninguém tivesse prejuízo. O governo não seria vítima de mais um processo de instabilidade, as empresas não estariam sujeitas a prejuízos bilionários, e os cidadãos não se arriscariam a consumir produtos de qualidade duvidosa.

É o mesmo problema que vimos na Operação Lava Jato. Enquanto os serviços de segurança de outros países entendem que sua missão é proteger as empresas nacionais e defender os interesses do país, o nosso sistema de repressão vê tudo com as lentes de um agente inimigo. E agora, para se defender das críticas, a PF provavelmente se sentirá forçada a promover uma “campanha” contra o setor de carne, emulando a estratégia de destruição que fez na Lava Jato.

Alguns protestaram contra as preocupações de ordem econômica levantadas por analistas: ora, disseram eles, vocês queriam que o brasileiro continuasse comendo carne estragada? Em primeiro lugar, sem exageros. A PF encontrou problemas em 21 unidades, num total de quase cinco mil empresas, e suspeita de crimes praticados por 33 servidores, num universo de 11 mil funcionários do Ministério da Agricultura. Não há notícia, até agora, de que a PF mandou recolher algum tipo de carne. As denúncias de “carne estragada”, portanto, estão apenas no campo da especulação, com base em conversas reservadas entre executivos.Uma das denúncias, de que uma empresa misturava “papelão” às carnes, parece já ter caído por terra. Foi “mal entendido” da PF, que divulgou uma gravação, em que um executivo falava, na verdade, da embalagem do produto.

Um mal entendido que pode custar vários bilhões de dólares à nossa economia. Do jeito que a PF e a mídia noticiaram a operação, a população brasileira ficou alarmada e compradores da carne brasileira, do mundo inteiro, também.Ficou parecendo que a gente passou dois anos comendo carne estragada, o que não é verdade. Os frigoríficos brasileiros, em seu esforço para ganhar os mercados mais exigentes do mundo, fizeram investimentos bilionários para aprimorar a qualidade da produção brasileira de carne. As unidades têm várias certificações internacionais. O processo é inteiramente monitorado por vários países.

Ninguém é santo e não se deve pôr a mão no fogo de ninguém. Mas houve sensacionalismo irresponsável sim. A PF de Curitiba, notoriamente, queria dar outro “susto” no governo. Em virtude da personalidade do delegado responsável pela operação, que já conhecemos da Lava Jato, não seria nenhuma surpresa se essa violência toda tenha sido motivada pela obsessão psicótica de pegar Lula. Há anos que circulava a mentira, na internet, de que o filho de Lula seria um dos proprietários ocultos da Friboi. É possível que o delegado tenha suspeitado de que havia alguma veracidade nesse boato.

Não houvesse o impeachment, a PF e a mídia estariam usando essa operação como mais um instrumento para “derrubar” o governo.

Levantar o impacto econômico da operação e criticar o seu sensacionalismo é, obviamente, importante. Sem economia, não há cultura, não há política, não há impostos, não há vida. Sem economia, não teremos nem como pagar a fiscalização necessária para supervisionar a qualidade da nossa carne.

Pensando nisso, O Cafezinho fez uma ampla pesquisa, junto a órgãos oficiais do governo brasileiro e dos EUA, para a gente ter uma ideia da importância da carne para a economia brasileira.

Não se trata apenas de comércio exterior. Carne significa proteína, principal nutriente para a vida humana. Qualquer desorganização do setor poder trazer insegurança alimentar não apenas para os nossos 206 milhões de habitantes, mas para o planeta inteiro, visto que bilhões de seres humanos, em todo mundo, dependem da carne brasileira.

Além disso, a concorrência internacional é feroz. E o nosso concorrente mais direto é os Estados Unidos, país cujos órgãos de segurança trabalham afinados para defender os interesses econômicos de suas empresas. Se você ler os boletins do Departamento de Agricultura dos EUA, verá que ele está repleto de análises e sugestões sobre como as empresas americanas de carne podem superar os seus concorrentes.

Vamos às estatísticas, que trazem números atualizados, compilados com exclusividade pelo Cafezinho.

São três tabelas. A primeira mostra o ranking mundial de produção, exportação e consumo doméstico de carne. Note que o Brasil é líder nos três itens. É grande produtor, grande exportador e grande consumidor.

Com isso, o Brasil é, naturalmente, alvo da cobiça internacional pelos três motivos. Os nossos concorrentes querem reduzir a nossa exportação, para diminuir o nosso market share e aumentar o deles. Querem tomar conta da nossa produção, adquirindo nossas empresas. E querem dominar o nosso mercado interno, um dos maiores do mundo.

Não estamos falando, portanto, apenas da nossa exportação de carnes, que gerou $ 14 bilhões de dólares em 2016, ou mais de 42 bilhões de reais, mas também de um dos maiores mercados do mundo, que movimenta centenas de bilhões de reais.

Observe, na tabela 2, que as exportações brasileiras de carnes cresceram fortemente desde 2002: mais de 344%.

Considerando apenas a exportação brasileira de carnes industrializadas, houve um crescimento de mais de 200%.

Na terceira tabela, note que a carne é o nosso terceiro item de exportação mais importante. O primeiro é soja, que os estrangeiros querem dominar através da liberação, pelo governo Temer, de vendas de terras a estrangeiros.

O minério de ferro nos foi tomado pela privatização da Vale.

Falta agora dominar a indústria brasileira de carnes. Observe que o valor agregado da carne é um dos maiores entre os produtos básicos exportados. A nossa soja é vendida por 378 dólares a tonelada. O ferro é entregue lá fora a 41 dólares a tonelada. O ferro é mais barato que o contêiner onde ele vai guardado.

A carne, porém, foi vendida em 2016 pelo preço médio de $ 2.121 dólares a tonelada, se considerarmos também o produto  industrializado, e $ 2.053 dólares considerando apenas a carne em natura. É um produto caro, que gera muitos empregos, impostos e renda no Brasil.

Se considerarmos apenas a carne bovina, o preço do produto in natura exportado pelo Brasil é de mais de $ 4 mil dólares por tonelada! Repare ainda que o preço médio da carne brasileira cresceu de maneira extraordinária de 2002 até hoje, o que mostra que estamos vendendo carnes de melhor qualidade, e atingindo mercados mais nobres.

A Polícia Federal e o Judiciário, por isso mesmo, deveriam tratar o setor com muito cuidado, protegendo suas empresas, defendendo o cidadão, e evitando transformar investigações importantes em mais um fator de desestabilização política.

O Judiciário, por sua vez, ao aprisionar R$ 1 bilhão das empresas, num momento da economia em que não há crédito novo na praça e o governo aposta num “ajuste” neoliberal que neutraliza os bancos públicos, dificulta que elas resolvam seus problemas internos, o que pode levá-las a paralisar suas atividades, com consequências danosas para toda a cadeia produtiva da carne, que gera milhões de empregos diretos e indiretos.

Essa lógica da “pegadinha”, que o MPF inclusive quer transformar em regra, onde o objetivo é produzir um vilão e subsidiar a mídia com um espetáculo, não é o papel da PF ou do Judiciário. Não se espere, contudo, da imprensa brasileira, que deveria estimular um debate de ideias fundamental para evitarmos esse tipo de coisa, nenhum bom senso. A própria mídia fomentou a subversão da Polícia Federal, do MP e do Judiciário, que se tornaram agências inimigas do próprio país. A mídia só está pensando em como faturar com a crise.

A matéria mais lida na Folha trata do potencial lucro da mídia com as necessárias operações de marketing que as empresas terão de fazer para recuperar os terríveis danos causados à sua imagem…